Há momentos em uma análise em que o que está sendo vivido com o psicanalista parece ultrapassar aquilo que pertence apenas ao encontro presente. Confiança, irritação, medo de decepcionar, necessidade de aprovação, expectativa de abandono, admiração, desconfiança ou sentimentos amorosos podem surgir com uma intensidade que chama atenção. Para Freud, esse fenômeno ocupa um lugar fundamental no tratamento psicanalítico: trata-se da transferência.
A transferência não significa simplesmente que o paciente “confunde” o psicanalista com alguém de seu passado. O fenômeno é mais complexo. Ao longo da vida, cada pessoa constitui determinadas formas de amar, esperar, temer, desejar e se defender nas relações. Parte dessas experiências permanece consciente; outra parte sofre os efeitos do recalque e continua operando inconscientemente. Na situação analítica, esses modos de relação podem encontrar uma nova ocasião para se apresentar.
Em “A dinâmica da transferência” (1912), Freud mostra que cada indivíduo desenvolve certas formas características de conduzir sua vida amorosa e estabelecer vínculos. Essas disposições não desaparecem quando alguém entra em análise. Ao contrário: podem ser dirigidas também à figura do psicanalista.
Isso significa que a relação analítica não acontece fora da história psíquica do paciente. O psicanalista passa a ocupar, na transferência, posições que possuem relação com experiências, fantasias, desejos e conflitos anteriores.
Por isso, alguém pode temer intensamente ser julgado pelo psicanalista mesmo sem ter recebido qualquer julgamento. Outro paciente pode sentir necessidade de agradá-lo, provar seu valor ou evitar contrariá-lo. Pode ainda surgir a expectativa de ser abandonado, rejeitado, controlado ou admirado.
O ponto fundamental não está em decidir imediatamente se esses sentimentos são “verdadeiros” ou “falsos”. Para a psicanálise, interessa compreender por que determinada relação está sendo construída dessa maneira e o que ela revela da vida psíquica daquele sujeito.
A transferência possui uma relação estreita com outro conceito fundamental da psicanálise: a repetição.
Em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), Freud observa que determinadas experiências não retornam necessariamente como lembranças organizadas. Muitas vezes, aquilo que não pode ser recordado aparece como ação, comportamento ou forma de relação.
O sujeito repete sem perceber inteiramente que está repetindo.
Na análise, essa repetição pode aparecer diante do próprio analista. Uma pessoa que passou a vida tentando conquistar o reconhecimento de figuras importantes pode começar a buscar incessantemente a aprovação do analista. Quem viveu relações marcadas pela expectativa de abandono pode interpretar determinados acontecimentos da análise a partir desse mesmo temor.
Nesse sentido, a transferência oferece algo precioso ao trabalho analítico: aquilo que poderia aparecer apenas como relato sobre o passado passa, em alguma medida, a se apresentar no próprio encontro analítico.
A análise deixa então de ser somente uma conversa sobre acontecimentos que já ocorreram. Certos conflitos ganham atualidade.
Freud percebeu, entretanto, que a transferência não facilita necessariamente o tratamento em todos os momentos. Ela pode também tornar-se uma forma de resistência.
Sentimentos dirigidos ao analista podem ocupar o lugar da investigação do conflito inconsciente. O paciente pode, por exemplo, preocupar-se excessivamente em agradar o analista, temer dizer determinadas coisas, sentir-se rejeitado diante de uma interpretação ou transformar a relação analítica no centro de expectativas amorosas.
Em vez de considerar esses acontecimentos como obstáculos externos ao tratamento, Freud compreendeu que eles próprios deveriam tornar-se material de análise.
É justamente essa característica que torna a transferência tão importante: ela pode simultaneamente dificultar o trabalho e oferecer acesso ao conflito que precisa ser investigado.
Freud dedica atenção especial a essa questão em “Observações sobre o amor de transferência” (1915 [1914]).
O paciente pode desenvolver sentimentos amorosos intensos pelo analista. Para Freud, o aparecimento desse amor não deve ser tratado como algo exterior ao processo nem correspondido como se pertencesse a uma relação amorosa comum.
O psicanalista precisa sustentar sua posição analítica.
Isso implica não explorar afetivamente aquilo que surge na transferência, mas também não simplesmente rejeitá-lo ou desqualificá-lo. O interesse clínico está em compreender as determinações inconscientes daquele sentimento: por que ele surge naquele momento, que lugar o analista passou a ocupar e quais experiências ou desejos estão encontrando ali uma nova expressão.
A transferência, portanto, exige do analista uma posição ética. Ele participa inevitavelmente da relação, mas precisa conservar as condições necessárias para que aquilo que emerge possa ser pensado e analisado.
Na vida cotidiana, muitas repetições permanecem difíceis de perceber porque cada nova relação parece completamente diferente da anterior.
Mudam as pessoas, os lugares e as circunstâncias, mas determinados afetos e expectativas podem insistir.
“Por que sempre sinto que vou ser abandonado?”
“Por que preciso tanto que reconheçam o que faço?”
“Por que qualquer crítica parece uma rejeição?”
“Por que me aproximo de pessoas diante das quais novamente preciso provar meu valor?”
Na transferência, algumas dessas questões podem aparecer de maneira particularmente viva.
O trabalho analítico não consiste em oferecer respostas prontas a elas, mas em criar condições para que o sujeito possa reconhecer aquilo que repete, investigar suas determinações inconscientes e elaborar de maneira diferente aspectos de sua própria história.
É nesse sentido que a transferência ocupa uma posição singular na psicanálise. Ela não é apenas um vínculo afetivo entre duas pessoas nem um efeito indesejado da proximidade entre paciente e analista.
Ela é um dos lugares em que o inconsciente se manifesta dentro da própria relação analítica.
Ao escutar aquilo que se repete nessa relação, a análise pode permitir que experiências anteriormente vividas apenas como destino comecem a ser reconhecidas como parte de uma história psíquica.
FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912).
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II) (1914).
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor de transferência (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III) (1915 [1914]).
Aglaé Oliveira
Psicanalista Freudiana