O psicanalista não é uma tela em branco. Por mais que Freud tenha proposto neutralidade e abstinência na condução do tratamento, ele sabia que o psicanalista é um sujeito com história, desejos e conflitos próprios. A contratransferência, conceito que designa o conjunto de reações emocionais do psicanalista em relação ao paciente, foi inicialmente vista como um obstáculo. Ao longo das décadas, tornou-se um dos instrumentos clínicos mais valiosos da psicanálise.
Freud abordou a contratransferência de modo breve e cauteloso. Em 1910, em uma conferência sobre as perspectivas futuras da terapia psicanalítica, mencionou que o psicanalista deve reconhecer em si mesmo a contratransferência e dominá-la. "Nenhum analista vai além do que seus próprios complexos e resistências internas permitem", escreveu.
Para Freud, a contratransferência era basicamente um problema. Se o psicanalista desenvolvia sentimentos intensos em relação ao paciente, fossem amorosos, hostis ou de qualquer outra natureza, isso indicava que seus próprios conflitos não resolvidos estavam interferindo no trabalho. A solução recomendada era clara: o psicanalista deveria submeter-se à sua própria análise pessoal para reduzir ao mínimo essas interferências.
A metáfora do espelho, utilizada por Freud para descrever a posição do psicanalista, expressa bem sua concepção: o psicanalista deveria funcionar como um espelho que reflete aquilo que o paciente projeta, sem acrescentar suas próprias imagens. Deveria manter uma opacidade pessoal, evitando que seus sentimentos, opiniões e valores corrompessem o campo analítico.
O conceito de identificação projetiva, desenvolvido por Melanie Klein, é indispensável para entender a contratransferência na perspectiva contemporânea. Na identificação projetiva, a pessoa não apenas projeta um sentimento na outra, mas exerce uma pressão inconsciente para que a outra sinta e aja de acordo com o que foi projetado.
Na clínica, isso quer dizer que o psicanalista pode se sentir invadido por emoções que não reconhece como suas: irritação inexplicável, sonolência, ansiedade, uma vontade súbita de cuidar do paciente ou de se afastar dele. Esses sentimentos, quando examinados com cuidado, podem mostrar o que o paciente está vivendo internamente, mas não consegue colocar em palavras.
A capacidade de trabalhar com a contratransferência é uma das competências fundamentais na formação de um psicanalista. Ela se constrói ao longo de anos de análise pessoal, supervisão e prática clínica.
A análise pessoal do psicanalista, imposta por todas as instituições psicanalíticas sérias, não é uma formalidade burocrática. Ela é o espaço onde o futuro psicanalista pode explorar seus próprios conflitos, conhecer seus pontos cegos e desenvolver a capacidade de suportar emoções intensas sem atuar a partir delas. Um psicanalista que não conhece suas próprias feridas corre o risco de misturar seus sentimentos com os do paciente, comprometendo o tratamento.
A supervisão clínica, na qual o psicanalista discute seus casos com um colega mais experiente, propicia um segundo olhar sobre a contratransferência. O supervisor pode identificar reações que o psicanalista não percebeu e ajudá-lo a entender o que está acontecendo na relação com o paciente.
Para Freud, a contratransferência refere-se às reações inconscientes despertadas no psicanalista pela transferência do paciente. Essas reações podem comprometer a escuta e levar o psicanalista a responder a partir de seus próprios conflitos. Portanto, precisam ser reconhecidas e submetidas ao trabalho da análise pessoal. A atenção flutuante, a neutralidade e a abstinência não representam ausência de sentimentos, tem relação com o psicanalista exigir não transformar suas reações pessoais em direção para o tratamento.