Na psicanálise, resistência não significa simplesmente má vontade, teimosia ou falta de compromisso com o tratamento. Freud percebeu que, justamente quando a análise se aproxima de conteúdos importantes, alguma força pode começar a trabalhar no sentido contrário. O paciente quer compreender o próprio sofrimento, mas ao mesmo tempo evita certas lembranças, interrompe associações, esquece, racionaliza, muda de assunto ou sente que “não há mais nada para falar”. Essa oposição não vem necessariamente de uma decisão consciente. Ela faz parte do próprio conflito psíquico.
Freud encontrou a resistência muito cedo em sua prática clínica. Quando abandonou a hipnose e passou a trabalhar com a fala, percebeu que os pacientes não simplesmente recordavam aquilo que havia sido afastado. Havia impedimentos. Algumas lembranças pareciam inacessíveis, determinados assuntos provocavam silêncio, e certas associações eram interrompidas justamente quando começavam a se aproximar de algo incômodo. Foi ficando claro que o mesmo processo que mantinha determinados conteúdos fora da consciência também aparecia dentro do tratamento tentando impedir seu retorno.
É fácil imaginar a resistência como algo que atrapalha o trabalho analítico. Freud, porém, percebeu que ela também é parte do próprio material da análise.
Se o paciente sempre muda de assunto quando fala do pai, isso importa. Se começa a faltar justamente depois de uma sessão difícil, isso importa. Se passa a considerar tudo “já resolvido” quando determinado conflito começa a ganhar força, isso também pode importar.
Nada disso deve ser interpretado automaticamente.
Uma falta pode ser apenas uma falta. Um silêncio pode ser apenas um silêncio. O valor clínico aparece quando esses movimentos se repetem, encontram relação com outros conteúdos e começam a ganhar sentido nas associações do próprio paciente.
A resistência não precisa ser vencida como se fosse um inimigo.
Precisa ser compreendida.
Recalque e resistência estão profundamente ligados.
O recalque mantém certas representações afastadas da consciência porque elas estão ligadas a desejos, lembranças ou fantasias capazes de produzir conflito. Quando a análise começa a se aproximar desse material, a resistência entra em ação para manter a defesa. Por isso, Freud percebe que não basta dizer ao paciente aquilo que estaria recalcado.
Mesmo que a interpretação esteja correta, o sujeito pode rejeitá-la, esquecê-la, transformá-la numa explicação intelectual ou simplesmente não conseguir fazer nada com ela. A questão não é apenas saber. Há forças trabalhando para que aquele saber não produza seus efeitos. É por isso que a análise precisa trabalhar também com a resistência que mantém o recalque.
Essa frase aparece com frequência numa análise. Às vezes, de fato, o paciente não sabe o que dizer naquele momento. Mas Freud chama atenção para o fato de que o vazio também pode surgir quando determinada cadeia associativa encontra um obstáculo. O paciente chega dizendo que nada aconteceu durante a semana. Não sonhou, não lembrou de nada, não tem assunto.
O analista não precisa imediatamente preencher esse espaço com perguntas.
Pode esperar. Muitas vezes, depois desse “não tenho nada para falar”, aparece justamente alguma coisa que o sujeito hesitava em trazer.
A dificuldade de falar também fala.
Nem toda resistência aparece como silêncio. Uma pessoa pode falar muito.
Pode explicar tudo. Pode conhecer conceitos psicanalíticos, reconhecer padrões e apresentar interpretações sofisticadas sobre sua própria história.
Ainda assim, pode permanecer afastada do conflito.
A inteligência não impede a resistência. Em alguns casos, pode até ajudá-la.
Uma explicação muito bem construída pode servir para manter determinada experiência apenas no campo intelectual. O sujeito sabe por que faz aquilo, conhece sua infância, compreende teoricamente sua repetição — e continua repetindo.
Freud percebeu que conhecer intelectualmente um conflito não equivale a elaborá-lo.
A resistência pode perfeitamente aprender a linguagem da análise.
A transferência não serve apenas ao avanço do tratamento. Ela também pode tornar-se uma das formas mais intensas de resistência.
O paciente passa a dirigir ao analista sentimentos, expectativas e conflitos que pertencem à sua história. Pode querer agradá-lo, desafiar sua autoridade, conquistar sua aprovação, provocar sua rejeição ou transformar a análise numa relação em que tudo gira em torno do próprio analista.
Quando isso acontece, algo que poderia ser lembrado passa a ser vivido diretamente. Freud percebe que o paciente muitas vezes não recorda simplesmente aquilo que foi recalcado.
Ele repete. E pode repetir justamente dentro da relação analítica.
Por isso, trabalhar a transferência também significa trabalhar a resistência.
Em Recordar, Repetir e Elaborar, de 1914, Freud apresenta uma ideia particularmente importante: aquilo que o paciente não consegue recordar pode aparecer como repetição.
Ele não diz: “eu sempre preciso provar que mereço ser amado”.
Ele começa a tentar provar isso ao psicanalista.
Não diz: “eu espero ser abandonado”.
Pode interpretar uma mudança de horário como sinal de abandono.
Não diz: “eu preciso enfrentar qualquer pessoa que represente autoridade”.
Passa a travar uma disputa constante com o analista.
O passado não aparece necessariamente como narrativa.
Pode aparecer como ação.
A repetição torna visível aquilo que ainda não encontrou outra forma de ser tratado.
Com a segunda tópica, Freud amplia bastante sua compreensão da resistência.
Em Inibição, Sintoma e Angústia, de 1926, ele descreve diferentes fontes de resistência e deixa claro que elas não podem ser reduzidas apenas ao recalque.
Há a resistência ligada ao próprio recalque, que procura impedir o acesso ao conteúdo afastado. Há também a resistência de transferência, quando o conflito passa a ser atualizado na relação analítica. E existe aquilo que Freud chama de ganho secundário da doença: situações em que o sintoma, apesar do sofrimento que produz, passou também a oferecer alguma vantagem ou proteção ao sujeito.
Isso não quer dizer que alguém escolha conscientemente adoecer para obter benefícios.
Um sintoma pode evitar uma situação temida, proteger de uma exigência, manter determinada relação ou permitir algo que seria difícil conseguir de outro modo. Quando isso acontece, abandoná-lo não significa apenas perder sofrimento.
Pode significar perder também uma solução.
Freud também reconhece uma resistência relacionada ao Id.
Aqui, a dificuldade está ligada à própria força da repetição.
Certas formas de funcionamento estão tão estabelecidas que não cedem simplesmente quando são reconhecidas. Há uma insistência pulsional que continua operando apesar do entendimento consciente.
O paciente pode saber exatamente o que se repete e ainda assim reencontrar o mesmo caminho.
Esse é um dos motivos pelos quais a psicanálise não promete mudanças rápidas pela simples aquisição de conhecimento.
A vida psíquica possui inércia.
Algumas formas de satisfação são antigas demais para serem abandonadas apenas porque passaram a ser compreendidas.
Há ainda uma resistência que Freud relaciona ao Superego e que pode ser particularmente difícil.
Alguns sujeitos parecem não se permitir melhorar.
Quando alguma coisa começa a andar bem, produzem novamente uma situação de sofrimento. Quando recebem reconhecimento, sentem culpa. Quando uma dificuldade diminui, outra parece ocupar seu lugar.
Freud relaciona certos fenômenos desse tipo à necessidade inconsciente de punição e ao sentimento inconsciente de culpa.
O Superego pode exigir sofrimento.
Isso ajuda a compreender por que, em alguns casos, a melhora pode paradoxalmente provocar resistência.
Não porque a pessoa conscientemente queira sofrer, mas porque deixar de sofrer pode entrar em conflito com exigências internas muito severas.
Anna Freud aprofundou essa discussão ao estudar de maneira mais sistemática as defesas do Ego.
Seu trabalho ajuda a perceber que a resistência não aparece somente no assunto que o paciente evita. Ela pode estar na própria maneira de falar.
O excesso de racionalização.
A ironia constante.
A necessidade de controlar todos os detalhes.
A transformação de qualquer sofrimento em brincadeira.
A recusa sistemática de depender de alguém.
A insistência em explicar antes de sentir qualquer coisa.
Esses modos de funcionamento não devem ser rotulados rapidamente. Eles precisam ser observados em conjunto com a história e com aquilo que acontece na análise.
Uma defesa pode ter sido indispensável em determinado momento da vida.
A questão é perceber quando ela continua operando mesmo depois de ter passado a cobrar um preço muito alto.
Nem sempre, mas Freud observou que a resistência frequentemente se intensifica quando o trabalho chega próximo de conteúdos importantes.
Isso explica uma experiência clínica curiosa.
Uma sessão pode parecer caminhar muito bem e, na semana seguinte, o paciente chegar dizendo que aquilo tudo não fez sentido.
Pode esquecer completamente uma interpretação que havia produzido forte efeito.
Pode começar a questionar se precisa mesmo continuar em análise.
Não é necessário concluir imediatamente que isso confirma uma interpretação.
Essa seria uma leitura autoritária.
Mas também não é preciso tratar a mudança de atitude como completamente desconectada daquilo que ocorreu antes.
A atenção flutuante permite justamente não decidir cedo demais.
Nem toda dificuldade vem do paciente.
Um analista que pergunta demais pode impedir a associação livre.
Um analista que interpreta cedo demais pode produzir oposição.
Um analista que deseja convencer o paciente de sua própria teoria pode transformar a sessão numa disputa.
A técnica freudiana exige cuidado justamente porque a resistência não deve ser atacada frontalmente.
Quando o analista tenta arrancar uma confissão ou provar que está certo, o Ego pode precisar defender-se ainda mais.
A interpretação precisa encontrar um momento em que possa ser trabalhada.
Não basta ser teoricamente correta.
Uma análise sem resistência não seria propriamente uma análise.
Se não houvesse forças contrárias, o sujeito simplesmente teria acesso consciente a todos os seus conflitos. Não precisaria de associação livre; não haveria recalque; não haveria dificuldade em recordar.
A própria existência da resistência mostra que algum conflito está sendo protegido. Ela possui uma função.
Talvez tenha impedido, durante muito tempo, que determinada quantidade de angústia chegasse de forma direta. Por isso, retirar uma defesa bruscamente não é necessariamente um avanço. Antes é preciso entender o que ela sustentava. Elaborar leva tempo.
Freud dá grande importância à elaboração justamente porque reconhecer uma resistência não significa que ela desapareça.
O paciente pode perceber que evita um tema e continuar evitando. Pode reconhecer uma repetição e repeti-la novamente.
Pode compreender sua transferência e ainda continuar vivendo aquele afeto com intensidade. A elaboração acontece pelo retorno ao conflito em diferentes momentos, por novas associações e pelo trabalho continuado das resistências.
Essa repetição dentro da análise não significa necessariamente que nada esteja acontecendo. Às vezes, é exatamente assim que o trabalho acontece.
Não numa revelação espetacular, mas numa aproximação lenta daquilo que durante muito tempo precisou permanecer distante.
A resistência mostra uma das contradições mais interessantes da análise.
A pessoa procura tratamento porque sofre. Quer compreender. Quer que algo mude. E, ao mesmo tempo, uma parte de seu funcionamento trabalha para que determinadas coisas permaneçam exatamente onde estão. Isso não é incoerência. É conflito psíquico.
Freud nunca imaginou um sujeito inteiramente unido em torno de um único desejo. Podemos querer e não querer ao mesmo tempo.
Podemos procurar uma verdade e afastar-nos dela assim que começa a incomodar. Podemos desejar abandonar um sintoma e temer aquilo que ficará em seu lugar. É por isso que resistência não é sinônimo de fracasso da análise.
Muitas vezes, ela mostra justamente onde o trabalho começa a ficar interessante. A questão não é quebrá-la. É escutá-la suficientemente para compreender o que ela ainda precisa proteger.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista