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Recalque: O Que o Psiquismo Afasta sem Fazer Desaparecer

Recalque: O Que o Psiquismo Afasta sem Fazer Desaparecer

O recalque ocupa um lugar central na teoria freudiana porque ajuda a compreender uma das características mais importantes da vida psíquica: nem tudo aquilo que produz conflito pode permanecer acessível à consciência. Certos desejos, lembranças, fantasias e representações tornam-se difíceis de admitir porque entram em choque com outras exigências do sujeito. Em vez de desaparecerem, são mantidos fora da consciência. É justamente esse movimento que Freud chama de recalque.

O ponto decisivo é este: recalcar não é esquecer de maneira comum, nem escolher conscientemente não pensar em alguma coisa. O recalque é uma operação psíquica que acontece fora da vontade consciente. O sujeito não decide o que será recalcado como quem arquiva um documento. Há uma força que mantém determinada representação afastada porque sua presença produziria conflito, desprazer ou angústia.

Freud percebeu que aquilo que é recalcado não deixa de existir. Continua ativo e procura outras formas de expressão. Por isso, o recalque não resolve o conflito. Ele modifica o caminho pelo qual esse conflito aparece.

O recalque e o inconsciente

A relação entre recalque e inconsciente é tão estreita que, em muitos momentos da obra freudiana, um não pode ser compreendido sem o outro.

O conteúdo recalcado passa a permanecer no inconsciente, mas continua ligado a uma quantidade de energia psíquica. É justamente essa energia que permite que ele continue produzindo efeitos. O sujeito pode não reconhecer determinado desejo, mas esse desejo ainda pode aparecer de forma disfarçada em sonhos, sintomas, atos falhos, fantasias e repetições.

Por isso, o inconsciente não é um depósito de coisas esquecidas.

Ele é um campo ativo.

O que foi recalcado continua insistindo.

Recalcar não é apagar

Esse é um dos maiores equívocos quando se fala de recalque.

Se algo pudesse simplesmente ser eliminado, não haveria retorno.

Mas Freud mostra que o material recalcado procura constantemente maneiras de reaparecer. Como a censura continua operando, esse retorno raramente ocorre de forma direta. O conteúdo precisa encontrar uma forma modificada.

É aí que aparecem os sintomas.

Um conflito sexual pode surgir como uma inibição. Uma hostilidade pode aparecer como culpa. Um desejo que não encontra expressão direta pode retornar em sonhos, lapsos ou comportamentos aparentemente sem relação com ele.

O sujeito muitas vezes percebe apenas o efeito.

A causa psíquica permanece fora do alcance imediato da consciência.

Recalque originário e recalque propriamente dito

Freud distingue diferentes momentos no processo de recalque.

O chamado recalque originário diz respeito a uma primeira operação pela qual determinadas representações ligadas à pulsão não chegam a ter acesso à consciência. Elas permanecem fora dela desde o início e passam a exercer uma força de atração sobre outros conteúdos.

Depois, ocorre o recalque propriamente dito, quando representações que já possuem alguma ligação com o material recalcado são também afastadas.

Isso ajuda a compreender por que certos temas parecem carregar uma força muito maior do que seu conteúdo aparente justificaria. Uma experiência atual pode aproximar-se de uma cadeia mais antiga e, por essa ligação, tornar-se difícil de pensar, lembrar ou falar.

O conflito presente nem sempre começa no presente.

O retorno do recalcado

Freud usa a expressão retorno do recalcado para mostrar que aquilo que foi afastado não permanece quieto.

Ele volta.

Mas volta transformado.

O retorno pode aparecer em um sonho que parece estranho, em um sintoma, numa escolha repetida, num medo sem explicação evidente, numa palavra trocada, numa fantasia insistente.

É importante não tratar esse retorno como se ele fosse uma mensagem pura e direta do inconsciente.

O que retorna já passou por deformações.

O psiquismo encontra uma solução intermediária entre aquilo que tenta se expressar e aquilo que continua tentando impedir sua expressão.

O sintoma como compromisso

O sintoma é um dos lugares em que esse conflito aparece de maneira mais clara.

Para Freud, o sintoma não é apenas um defeito do funcionamento psíquico. Ele pode ser entendido como uma formação de compromisso.

De um lado, existe uma exigência pulsional.

De outro, existe uma defesa contra essa exigência.

O sintoma permite que algo da pulsão encontre satisfação, mas de maneira disfarçada e ao preço de sofrimento.

Essa ideia é importante porque impede uma visão simplista do tratamento. Eliminar um sintoma sem compreender sua função pode não resolver o conflito que o produziu.

O sintoma incomoda, mas também serve a alguma coisa.

Recalque e angústia

A relação entre recalque e angústia muda ao longo da obra de Freud.

Em suas primeiras formulações, Freud considerava que o recalque transformava a energia pulsional em angústia. Mais tarde, especialmente em Inibição, Sintoma e Angústia, ele revê essa posição e passa a considerar que a angústia pode funcionar como sinal de perigo, levando o Ego a colocar o recalque em funcionamento.

Essa mudança é importante.

O Ego percebe a aproximação de algo que ameaça romper determinadas barreiras e produz um sinal de angústia. Diante disso, procura afastar o conteúdo.

O recalque, portanto, aparece como uma defesa diante de um perigo psíquico.

Não é o simples efeito da angústia.

Ele é uma tentativa de evitá-la.

O Ego e o recalque

Com a segunda tópica, Freud deixa ainda mais claro que o Ego não é inteiramente consciente.

Isso ajuda a compreender como o recalque pode ser uma operação do Ego sem que o sujeito saiba que está realizando essa defesa.

O Ego procura manter afastado aquilo que ameaça sua organização.

Pode ser um desejo incompatível com o Superego.

Pode ser uma lembrança que produz culpa.

Pode ser uma fantasia que contraria a imagem que a pessoa construiu de si mesma.

O Ego participa desse trabalho sem que a consciência acompanhe cada movimento.

É por isso que alguém pode dizer com sinceridade que não sente determinada coisa e, ainda assim, agir de maneira profundamente marcada por ela.

Recalque e resistência

Na clínica, o recalque aparece muitas vezes por meio da resistência.

O paciente começa a falar sobre determinado tema e muda de assunto.

Esquece uma lembrança.

Diz que algo não tem importância.

Ri.

Fica excessivamente racional.

Diz que não sabe o que falar.

Esses movimentos podem indicar que o trabalho se aproximou de algo que encontra oposição.

Freud percebe que a resistência não é um problema externo à análise.

Ela é o próprio recalque aparecendo durante o tratamento.

Por isso, não basta dizer ao paciente qual conteúdo estaria recalcado.

É preciso trabalhar a resistência que mantém esse conteúdo afastado.

Saber não basta

Esse ponto merece atenção porque é comum imaginar que uma interpretação correta resolveria o conflito.

Freud mostra que não funciona assim.

Uma pessoa pode ouvir uma explicação sobre si, concordar intelectualmente com ela e continuar exatamente no mesmo lugar.

Isso acontece porque o recalque não é sustentado apenas pela falta de informação.

Ele é sustentado por forças psíquicas.

O sujeito não deixa de recalcar porque recebeu uma explicação inteligente.

A análise exige tempo porque é preciso trabalhar aquilo que resiste ao reconhecimento.

É aqui que entra a elaboração.

Anna Freud e as defesas do Ego

Anna Freud aprofundou o estudo das defesas e ajudou a mostrar com mais clareza como o Ego procura proteger-se de situações que produzem angústia.

O recalque permanece uma defesa fundamental, mas não é a única.

O Ego pode recorrer a outras operações para afastar, modificar ou deslocar determinados conteúdos.

A importância de Anna Freud está justamente em mostrar que a defesa não é um acidente.

Ela tem função.

O sujeito não se defende sem motivo.

Alguma coisa precisa ser mantida à distância.

Recalque e sexualidade

Na obra freudiana, o recalque aparece fortemente ligado à sexualidade infantil.

Desejos ligados às primeiras relações, às fantasias edípicas e às experiências corporais podem entrar em conflito com proibições e exigências morais.

Parte desse material sofre recalque.

Mais tarde, determinadas situações amorosas ou sexuais podem tocar nessas antigas formações e reativar conflitos que o sujeito não consegue reconhecer conscientemente.

Isso ajuda a compreender por que certas dificuldades parecem desproporcionais à situação atual.

Nem sempre o presente está sozinho.

Às vezes, ele apenas encontra uma história que já estava ali.

O recalque não é sempre patológico

Não seria correto tratar o recalque como algo que deveria desaparecer completamente.

A vida em sociedade e a própria organização psíquica dependem de renúncias, limites e formas de defesa.

O problema surge quando o recalque se torna muito rígido e passa a produzir sofrimento importante.

Uma pessoa pode gastar enorme quantidade de energia psíquica mantendo determinadas representações afastadas.

Pode precisar evitar situações, relações e pensamentos que se aproximem demais daquilo que foi recalcado.

Nesse ponto, aquilo que deveria proteger começa a restringir.

O recalque na clínica

O trabalho analítico não consiste em retirar à força aquilo que foi recalcado.

Se um conteúdo está afastado, existe uma razão psíquica para isso.

Interpretações precipitadas podem aumentar a resistência.

A análise procura acompanhar os caminhos pelos quais o recalcado retorna.

Os sonhos.

Os lapsos.

Os sintomas.

As repetições.

As contradições.

As mudanças de assunto.

A transferência.

É por esses caminhos indiretos que o conflito começa a ganhar forma.

Aquilo que insiste

Talvez a força do conceito de recalque esteja justamente em mostrar que o psiquismo não consegue simplesmente apagar aquilo que lhe causa conflito.

Pode afastar.

Pode deformar.

Pode esconder de si mesmo.

Mas não consegue garantir silêncio absoluto.

O recalcado continua procurando uma saída.

Às vezes aparece num sonho.

Às vezes num sintoma.

Às vezes numa escolha que se repete.

Às vezes numa palavra que escapa.

Freud encontra aí uma das marcas mais profundas do inconsciente.

Aquilo que não pôde ser admitido continua participando da vida do sujeito.

A análise não promete retirar todo recalque nem transformar tudo em consciência.

Ela procura compreender por que determinados conteúdos precisaram ser afastados, que conflito sustentou essa defesa e de que maneira aquilo que foi recalcado continua encontrando formas de retornar.

Aglaé Santana de Oliveira

Psicanalista