A psicanálise não é uma conversa comum e também não se organiza como uma relação em que uma pessoa pergunta e a outra responde. Desde Freud, o tratamento analítico depende de posições diferentes, mas igualmente necessárias: a do analisando, que fala a partir da regra fundamental da associação livre, e a do analista, que escuta sem conduzir previamente o discurso para aquilo que considera importante.
Essa diferença é essencial. O analista não ocupa o lugar de conselheiro, professor ou autoridade que conhece antecipadamente a resposta para o sofrimento do outro. O analisando, por sua vez, não comparece apenas para relatar fatos ou receber explicações sobre sua vida. O trabalho acontece a partir daquilo que é dito, evitado, repetido, esquecido e também daquilo que passa a ser vivido na relação analítica.
Freud estabeleceu como regra fundamental da psicanálise que o paciente deveria dizer tudo o que lhe viesse à mente, mesmo aquilo que parecesse banal, vergonhoso, incoerente, desagradável ou sem relação com o assunto que estava sendo tratado.
É dessa regra que surge a posição do analisando.
Associar livremente não significa falar de maneira organizada sobre os acontecimentos da semana. Também não significa escolher os assuntos considerados mais importantes. Ao contrário, Freud pede justamente que o sujeito suspenda, na medida do possível, essa seleção consciente.
Essa tarefa parece simples até que se tenta realizá-la.
Enquanto fala, o analisando percebe que algumas palavras custam mais do que outras. Certos assuntos são interrompidos, outros recebem longas explicações, algumas lembranças aparecem inesperadamente e determinados temas retornam repetidamente. É nesse movimento que a resistência começa a se mostrar.
A análise não depende simplesmente da quantidade de informações que o paciente fornece.
Uma pessoa pode contar detalhadamente toda a sua história e continuar afastada justamente daquilo que participa de seu conflito. Pode falar durante uma sessão inteira e, ainda assim, manter uma organização defensiva muito eficiente.
Por isso, não é apenas o conteúdo da narrativa que interessa.
A maneira como o sujeito conta, as contradições que aparecem, as mudanças repentinas de assunto, as justificativas excessivas, os esquecimentos e as repetições também fazem parte do trabalho.
O analisando não precisa chegar à sessão sabendo o que deve dizer. Na verdade, essa exigência de preparar previamente uma fala pode funcionar contra a própria associação livre.
Resistir não significa recusar conscientemente o tratamento.
Em Freud, a resistência pode aparecer justamente quando o trabalho se aproxima de conteúdos que produzem conflito. O analisando pode esquecer uma sessão, sentir que não tem nada para dizer, considerar determinado assunto irrelevante, mudar de tema ou começar a questionar intensamente o próprio método.
Esses movimentos não devem ser tratados como falta de compromisso de maneira automática. Eles podem fazer parte da própria dinâmica analítica.
Freud percebeu que o mesmo funcionamento que mantém determinados conteúdos afastados da consciência também aparece durante o tratamento, tentando impedir que o trabalho se aproxime deles.
Por isso, a resistência não está fora da análise. Ela se torna parte dela.
Se ao analisando cabe tentar associar livremente, ao analista Freud propõe uma regra correspondente: a atenção flutuante.
Isso significa escutar sem selecionar antecipadamente aquilo que considera relevante. O analista não deve ouvir apenas o assunto principal, nem procurar no discurso uma confirmação para uma hipótese que já formulou.
A escuta analítica precisa permanecer disponível para relações que não estavam previstas.
Uma palavra aparentemente secundária pode reaparecer mais tarde. Um detalhe narrado rapidamente pode ganhar importância diante de outras associações. Uma contradição pode revelar mais sobre o conflito do que uma longa explicação racional.
O analista escuta o conjunto sem transformar a sessão em interrogatório.
Uma das diferenças mais importantes entre psicanálise e aconselhamento está justamente nesse ponto.
O analista não decide se o paciente deve permanecer em um casamento, terminar um relacionamento, trocar de profissão, perdoar alguém ou romper com sua família.
Mesmo quando determinada decisão parece evidente para quem escuta, transformá-la em conselho significa ocupar um lugar que não pertence ao trabalho analítico.
O interesse da análise está em compreender por que determinada situação produz aquele conflito, quais desejos estão envolvidos, o que se repete, quais medos aparecem e o que impede o sujeito de encontrar suas próprias respostas.
Dar uma solução pode encerrar justamente a pergunta que precisava continuar sendo trabalhada.
A posição do analista também não deve ser confundida com indiferença.
Freud recomenda uma postura de neutralidade e abstinência porque o tratamento não deve ser organizado para satisfazer os desejos do analista nem para fornecer ao paciente respostas substitutivas para aquilo que está sendo colocado em análise.
Isso não exige uma presença fria ou desumana.
O analista escuta, intervém e participa do trabalho, mas procura não transformar seus valores pessoais, suas crenças ou suas necessidades em direção para a vida do paciente.
Essa diferença é fundamental porque a relação analítica inevitavelmente mobiliza afetos.
O analisando não fala para um interlocutor neutro no sentido comum da palavra. Ao longo do tratamento, sentimentos, expectativas, desejos e conflitos ligados a relações anteriores podem passar a ser atualizados na relação com o analista.
Freud chamou esse fenômeno de transferência.
O paciente pode sentir necessidade de aprovação, medo de julgamento, raiva diante de um silêncio, desejo de agradar ou receio de decepcionar. Esses afetos não são tratados apenas como obstáculos. Eles permitem observar formas de relação que pertencem à própria história psíquica do sujeito.
O analista precisa ter cuidado para não responder a essas demandas como responderia numa relação cotidiana.
Se o paciente procura aprovação, não cabe simplesmente fornecê-la. Se espera rejeição, também não cabe reproduzi-la.
A transferência precisa ser trabalhada, não satisfeita automaticamente.
A escuta analítica não significa permanecer em silêncio durante toda a sessão.
O analista pode pedir um esclarecimento, assinalar uma contradição, chamar atenção para uma repetição, confrontar determinada construção defensiva ou formular uma interpretação quando houver elementos suficientes para isso.
O momento da intervenção importa tanto quanto seu conteúdo.
Uma interpretação correta feita antes que o paciente tenha condições de trabalhar com ela pode produzir apenas resistência. Também pode transformar-se numa explicação intelectual que o sujeito repete sem qualquer elaboração.
Freud mostrou que conhecer teoricamente a causa de um conflito não equivale a trabalhar psiquicamente com ele.
O analista não precisa demonstrar que sabe. Precisa saber quando falar e, muitas vezes, quando não falar.
A posição analítica exige que o profissional conheça os próprios conflitos.
Freud percebeu muito cedo que os pontos cegos do analista poderiam limitar sua capacidade de escuta. Aquilo que ele não consegue reconhecer em si pode interferir na maneira como recebe determinados conteúdos do paciente.
Por isso, a análise pessoal tornou-se parte fundamental da formação psicanalítica.
Anna Freud também deu grande importância à formação do analista e ao conhecimento de suas próprias defesas. Um profissional que não percebe suas reações pode interpretar a partir de suas necessidades pessoais, moralizar o discurso do paciente ou evitar justamente os conteúdos que mais o incomodam.
A análise pessoal não torna o analista livre de conflitos. Ela reduz o risco de transformar esses conflitos em instrumento de condução do tratamento.
Analista e analisando não ocupam posições equivalentes.
O analisando é convidado a falar sem selecionar previamente seu discurso. O analista precisa escutar sem transformar essa fala numa conversa guiada por curiosidade, conselho ou julgamento.
O analisando pode amar, odiar, idealizar, desconfiar ou se irritar com o analista. O analista precisa compreender essas manifestações sem responder simplesmente a partir de suas próprias necessidades.
Isso não cria uma relação de superioridade.
Cria uma assimetria necessária ao método.
A sessão não existe para satisfazer emocionalmente o analista. Também não existe para manter o paciente permanentemente confortável.
Existe para que aquilo que participa de seu conflito possa ser investigado.
A análise exige participação.
Não porque o paciente tenha obrigação de produzir uma fala perfeita, mas porque ninguém pode associar por ele.
O analista não pode descobrir uma verdade e simplesmente entregá-la pronta. Pode escutar, interpretar, apontar resistências e acompanhar repetições, mas o trabalho depende daquilo que o próprio analisando consegue colocar em palavras e elaborar ao longo do tempo.
Isso inclui suportar momentos em que não há respostas imediatas.
Muitas vezes, a vontade de encontrar rapidamente uma explicação também funciona como defesa contra a dificuldade de permanecer diante de uma pergunta.
A análise exige algum tempo justamente porque os conflitos inconscientes não obedecem à urgência da consciência.
Freud construiu um método no qual psicanalista e analisando participam ativamente, mas não fazem a mesma coisa.
Ao analisando cabe falar e tentar não selecionar aquilo que considera digno de ser dito. Ao analista cabe escutar, reconhecer resistências, acompanhar a transferência e intervir sem transformar sua própria visão de mundo em regra para o paciente.
Quando essas posições se confundem, a análise também se modifica. Se o analista aconselha demais, a associação perde espaço. Se pergunta demais, começa a organizar previamente o discurso. Se interpreta tudo, impede que o paciente faça seu próprio trabalho. Se o analisando procura apenas respostas prontas, transforma o analista naquele que deve saber por ele.
A psicanálise segue outro caminho. Ela parte da ideia de que existe algo no sujeito que ele próprio desconhece e que esse desconhecido não será alcançado por um questionário ou por uma explicação pronta. Será preciso falar.
E será preciso alguém que saiba escutar.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista Freudiana e Bióloga