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O Mal-Estar na Civilização

O Mal-Estar na Civilização

Freud publicou O Mal-Estar na Civilização em 1930, num período marcado por guerras, instabilidade política e profundas mudanças sociais. Mas o ponto central da obra não está apenas no tempo histórico em que foi escrita. Freud trata de um conflito muito mais antigo e permanente: viver em sociedade exige renúncias, e essas renúncias têm um preço psíquico.

O ser humano não nasce naturalmente disposto a limitar seus desejos em nome da convivência coletiva. Há pulsões que procuram satisfação, inclusive aquelas ligadas à sexualidade e à agressividade. A civilização, por sua vez, precisa estabelecer regras, proibições e limites para que a vida em comum seja possível.

É justamente aí que começa o mal-estar.

A civilização exige renúncia

Para Freud, a civilização se constrói a partir da restrição pulsional. Não podemos fazer tudo o que desejamos, atacar quem nos contraria, tomar aquilo que queremos ou satisfazer nossas pulsões sem considerar o outro.

Essa limitação é indispensável para a vida coletiva, mas não ocorre sem conflito.

A pulsão não desaparece simplesmente porque uma regra foi estabelecida. O desejo proibido continua existindo. A agressividade impedida de encontrar descarga direta pode procurar outros caminhos. Parte desse conflito é administrada pelo Ego, parte é recalcada e parte pode retornar sob a forma de sintomas, culpa, irritação, hostilidade ou sofrimento psíquico.

Assim, aquilo que protege o sujeito da violência do outro também exige que ele abra mão de uma parcela de sua própria satisfação.

O problema da felicidade

Freud é bastante pouco otimista quando fala da felicidade humana. Ele não considera que o sujeito tenha sido feito para permanecer continuamente feliz.

Há sofrimento vindo de três fontes principais: do próprio corpo, que envelhece, adoece e morre; do mundo externo, que pode nos ameaçar; e das relações com outras pessoas.

Curiosamente, Freud considera o sofrimento causado pelas relações humanas um dos mais difíceis de suportar.

Amamos, dependemos, desejamos, esperamos, frustramo-nos, perdemos. Aquilo que pode produzir algumas das maiores satisfações também pode se transformar numa importante fonte de sofrimento.

Não há como retirar essa contradição da experiência humana.

Amor e civilização

A civilização precisa dos vínculos entre as pessoas. Família, amizade, sexualidade, identificação e relações de afeto ajudam a manter os grupos unidos.

Ao mesmo tempo, existe uma tensão entre aquilo que o indivíduo deseja para si e aquilo que a sociedade exige dele.

O amor, por exemplo, pode ligar duas pessoas de maneira intensa, mas essa ligação também concentra investimentos libidinais que nem sempre interessam às exigências mais amplas da coletividade.

A civilização procura ampliar os laços entre os indivíduos. Freud percebe, porém, que não basta ordenar que alguém ame o próximo.

O mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é examinado por ele com bastante desconfiança. O problema não está apenas na dificuldade de amar desconhecidos. Está também no fato de que o outro não é somente alguém que pode ser amado.

Ele também pode ser rival, obstáculo, fonte de frustração ou objeto da agressividade.

A agressividade humana

Esse é um dos pontos mais fortes do texto.

Freud não pensa o ser humano como naturalmente bom, posteriormente corrompido pela sociedade. A agressividade faz parte de sua constituição pulsional.

O homem pode amar, cuidar, criar e proteger. Também pode dominar, humilhar, explorar e destruir.

A civilização precisa controlar essa agressividade para sobreviver.

Leis, normas, instituições e proibições cumprem parte dessa função. Mas existe outro mecanismo ainda mais importante: uma parcela dessa agressividade volta-se contra o próprio sujeito.

É nesse ponto que Freud coloca o Superego no centro da discussão.

Superego, culpa e necessidade de punição

A agressividade que não pode ser descarregada livremente contra o mundo externo pode ser dirigida contra o próprio Ego.

O Superego assume então uma função severa, crítica e punitiva.

O sujeito pode sentir culpa não apenas por aquilo que fez, mas também pelo que desejou. A intenção pode ser julgada internamente quase como se fosse uma ação.

Essa é uma das consequências mais duras do processo civilizatório.

Quanto maior a exigência de controle sobre a agressividade, maior pode ser a força com que essa agressividade retorna contra o próprio indivíduo sob a forma de culpa.

Há, portanto, uma contradição importante: aquilo que torna possível a convivência pode também aumentar o sofrimento interno.

A civilização tenta conter a violência entre os homens, mas parte dessa violência pode reaparecer dentro do próprio sujeito.

A culpa que não se reconhece

Nem sempre a culpa aparece de forma clara.

Uma pessoa pode dizer que não tem motivo algum para se sentir culpada e, ainda assim, viver em permanente cobrança, sentir que nunca faz o suficiente, procurar punições nas relações ou produzir fracassos repetidos.

Freud mostra que o sentimento de culpa pode permanecer inconsciente.

O sujeito sofre os efeitos de uma exigência interna sem necessariamente saber de onde ela vem.

É possível, inclusive, que quanto mais uma pessoa renuncie a determinadas satisfações, mais severo seu Superego se torne.

Isso desmonta uma ideia simples de que “ser bom” necessariamente produz tranquilidade interna.

A renúncia pode apaziguar a sociedade sem apaziguar o psiquismo.

O preço de viver entre outros

Freud não apresenta uma solução para o conflito entre indivíduo e civilização porque, para ele, esse conflito não pode ser eliminado.

Sem civilização, estaríamos expostos de maneira ainda mais direta à violência, à força e às exigências pulsionais dos outros.

Com a civilização, somos obrigados a limitar também nossas próprias pulsões.

Não existe saída sem perda.

É justamente por isso que o título da obra é tão preciso. Freud não fala de uma doença da civilização que pudesse ser curada com uma organização social perfeita. Ele fala de um mal-estar ligado à própria condição de viver em sociedade.

A cultura oferece proteção, conhecimento, arte, vínculos, leis e formas de organização. Em troca, exige renúncias.

O problema não está em escolher entre liberdade absoluta e civilização. A liberdade absoluta de um sujeito significaria, muito rapidamente, a ameaça à liberdade e à segurança do outro.

O mal-estar não desapareceu

Quase um século depois, a questão continua atual.

A sociedade mudou, mas o conflito entre desejo e limite permanece.

Existem hoje outras formas de cobrança, comparação, exposição e exigência. O sujeito pode ser pressionado a produzir mais, parecer feliz, ter sucesso, manter relacionamentos satisfatórios, cuidar do corpo, administrar emoções e demonstrar equilíbrio.

Até a felicidade pode se transformar em obrigação.

Mas a vida psíquica não obedece a slogans.

Não se elimina a agressividade por decreto, não se controla o desejo apenas pela vontade e não se dissolve a culpa repetindo frases positivas.

Freud nos obriga a reconhecer uma verdade menos confortável: existe conflito onde gostaríamos de encontrar harmonia.

Uma leitura que continua incômoda

O Mal-Estar na Civilização continua sendo uma obra difícil justamente porque Freud não oferece uma promessa de conciliação definitiva.

Ele não idealiza o ser humano nem a sociedade.

A civilização é necessária, mas cobra seu preço. As pulsões procuram satisfação, mas não podem ser satisfeitas sem limites. O Superego ajuda a controlar aquilo que ameaça a vida coletiva, mas também pode tornar-se cruel com o próprio sujeito.

Entre desejo, proibição, agressividade, culpa e necessidade de vínculo, o indivíduo tenta construir sua vida.

A psicanálise não elimina essa tensão. Ela permite investigar como cada pessoa encontrou maneiras particulares de lidar com aquilo que precisou renunciar, com a culpa que carrega e com os conflitos que continuam atuando mesmo quando não são reconhecidos conscientemente.

Freud não promete uma existência sem mal-estar.

Talvez sua contribuição esteja justamente em mostrar por que essa promessa nunca poderia ser cumprida.

Aglaé Santana de Oliveira

Psicanalista Freudiana