Em Freud, a neurose se organiza a partir do conflito psíquico. Um desejo, uma representação ou uma exigência pulsional encontra oposição no aparelho psíquico, sobretudo pelas forças defensivas do ego e pelas proibições que participam da formação do superego. O que não pode alcançar livremente a consciência não desaparece. Permanece ativo e procura outras vias de expressão.
Desde Estudos sobre a histeria (1895), Freud observa que o sintoma possui uma história e uma lógica próprias. A formação sintomática está ligada a conteúdos que não puderam ser integrados conscientemente e que retornam de forma substitutiva. Com o desenvolvimento do conceito de recalque, essa formulação ganha maior precisão. Em O recalque (1915), Freud mostra que a representação incompatível é afastada da consciência, mas conserva sua força no inconsciente.
O sintoma nasce dessa tensão. Ele permite uma satisfação pulsional deformada, ao mesmo tempo em que atende às exigências defensivas. Por isso Freud o compreende como uma formação de compromisso. A satisfação não desaparece, mas retorna modificada, disfarçada e frequentemente acompanhada de sofrimento.
Essa lógica aparece nas fobias, nas obsessões, nas inibições e nos sintomas histéricos. O conteúdo manifesto não esgota aquilo que está em jogo. O medo pode encobrir outro conflito, o ritual obsessivo pode responder a impulsos e proibições inconscientes, o sintoma corporal pode representar algo que não encontrou outra forma de expressão.
Nas Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917), Freud mostra que os sintomas possuem sentido e se vinculam à história do sujeito. Eles não são elementos isolados do funcionamento psíquico. São derivados de desejos, fantasias, conflitos e modos de satisfação que permaneceram ativos no inconsciente.
Com a formulação de id, ego e superego, em O ego e o id (1923), o conflito neurótico passa a ser pensado também a partir das relações entre essas instâncias. O ego tenta responder às exigências pulsionais do id, às restrições impostas pela realidade e às exigências do superego. Quando essas forças entram em oposição intensa, as defesas podem se tornar mais rígidas e produzir sintomas.
O superego pode assumir um funcionamento particularmente severo. A culpa, a autocrítica, a necessidade de punição e a sensação de nunca corresponder suficientemente às próprias exigências podem ter participação importante no sofrimento neurótico. O sujeito passa a ocupar, diante de si mesmo, uma posição de cobrança constante.
Em Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud reformula a teoria da angústia e a situa como sinal de perigo para o ego. Diante da ameaça de perda do objeto, perda do amor, castração ou punição do superego, o ego mobiliza defesas. O sintoma pode surgir justamente como uma dessas soluções defensivas.
A neurose se sustenta, portanto, em uma divisão interna. O sujeito pode desejar e proibir o mesmo movimento, buscar uma satisfação e simultaneamente defender-se dela, aproximar-se de um objeto e produzir condições para afastá-lo. Essa ambivalência faz parte da dinâmica do conflito inconsciente.
Na clínica, o sintoma é escutado como expressão de uma organização psíquica. Sua função precisa ser compreendida antes que qualquer mudança possa ocorrer. O trabalho analítico se dirige às resistências, às fantasias, às formações inconscientes e às relações entre desejo, defesa e culpa.
Freud mostra que aquilo que foi recalcado retorna. Retorna no sintoma, na repetição, na angústia, no ato falho, no sonho e na transferência. A neurose se torna compreensível quando se investiga o conflito que mantém essas formações em atividade e a satisfação inconsciente que permanece ligada a elas.
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria. 1895.
FREUD, Sigmund. O recalque. 1915.
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise. 1916-1917.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. 1923.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. 1926.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista