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Mecanismos de Defesa: Como o Ego Lida com o Conflito

Mecanismos de Defesa: Como o Ego Lida com o Conflito

Os mecanismos de defesa ocupam um lugar importante na teoria psicanalítica porque dizem respeito à forma como o Ego tenta lidar com conflitos que poderiam produzir angústia intensa. Eles não aparecem apenas em quadros graves, nem pertencem exclusivamente à patologia. Fazem parte do funcionamento psíquico de qualquer pessoa. O problema surge quando determinadas defesas se tornam rígidas, repetitivas e passam a limitar de maneira importante a relação do sujeito com seus desejos, com os outros e com a própria realidade.

Freud não apresentou os mecanismos de defesa como uma lista organizada da forma como hoje costumamos encontrá-los nos livros de psicologia. Sua obra foi mostrando, ao longo do tempo, diferentes operações utilizadas pelo psiquismo diante de conteúdos incompatíveis com as exigências do Ego, do Superego ou da realidade. O recalque ocupa um lugar central nesse percurso. Mais tarde, Anna Freud, especialmente em O Ego e os Mecanismos de Defesa, de 1936, sistematizou esse campo e ampliou a observação das formas pelas quais o Ego procura proteger-se da angústia.

O Ego diante do conflito

O Ego não trabalha em condições simples. Ele precisa lidar com exigências pulsionais vindas do Id, com as proibições e cobranças do Superego e com aquilo que a realidade externa permite ou impede. Essas exigências frequentemente entram em conflito entre si.

Um desejo pode ser intenso e, ao mesmo tempo, produzir culpa. Uma emoção pode ser considerada inaceitável pelo próprio sujeito. Uma lembrança pode estar associada a uma quantidade de sofrimento que o Ego não consegue admitir diretamente. Em situações assim, as defesas entram em ação.

A função dessas defesas não é eliminar a pulsão, apagar uma experiência ou resolver definitivamente um conflito. Elas procuram diminuir o desprazer e impedir que determinados conteúdos alcancem a consciência de forma direta. O conflito, porém, continua existindo. Aquilo que é afastado pode retornar por outros caminhos.

Por isso, uma defesa pode aliviar e, ao mesmo tempo, produzir consequências.

O recalque

O recalque é uma das operações fundamentais da teoria freudiana. Determinada representação ligada a um desejo ou a um conflito é mantida fora da consciência porque sua presença provocaria desprazer ou angústia.

O conteúdo recalcado não deixa de existir. Ele continua investido e procurando expressão. O retorno do recalcado pode aparecer nos sonhos, nos lapsos, nos sintomas, nas fantasias e em comportamentos cuja razão o sujeito não consegue compreender inteiramente.

Essa é uma das razões pelas quais a simples decisão consciente de “não pensar mais nisso” não equivale ao recalque psicanalítico. O recalque é uma operação inconsciente. O sujeito não escolhe conscientemente aquilo que ficará afastado.

Na clínica, também não basta simplesmente revelar ao paciente algo que se supõe recalcado. O trabalho exige tempo porque as resistências que sustentam o recalque continuam ativas.

A negação

Na negação, o sujeito entra em contato com determinado conteúdo, mas recusa algum aspecto de sua realidade ou de seu significado.

É possível, por exemplo, reconhecer intelectualmente uma situação e, ao mesmo tempo, comportar-se como se ela não estivesse acontecendo. A frase “eu sei, mas...” muitas vezes mostra bem essa divisão. Há um reconhecimento parcial, seguido de uma tentativa de afastar aquilo que esse reconhecimento implicaria.

Freud mostrou que a negação pode permitir que determinado conteúdo recalcado chegue à consciência sem que o sujeito o aceite plenamente. Algo pode ser dito e imediatamente negado.

É por isso que a fala analítica merece atenção até mesmo quando o paciente afirma que determinado pensamento “não tem nada a ver” com ele.

A projeção

Na projeção, sentimentos, desejos ou impulsos que causam conflito são atribuídos a outra pessoa.

O sujeito pode não reconhecer sua própria hostilidade, mas ter certeza de que todos estão contra ele. Pode não admitir determinado desejo e percebê-lo constantemente nos outros. A projeção permite que o conflito seja localizado fora de si, onde parece mais fácil de suportar.

Isso não significa que tudo o que uma pessoa percebe no outro seja projeção. O problema começa quando a leitura da realidade fica excessivamente organizada por conteúdos internos que o sujeito não reconhece como próprios.

Na clínica, esse mecanismo exige cuidado porque uma interpretação precipitada pode transformar-se em acusação. O trabalho analítico não consiste em dizer ao paciente “isso é seu”. É preciso acompanhar como aquela atribuição aparece, se repete e se relaciona com outras partes de sua história.

O deslocamento

O deslocamento ocorre quando a intensidade de um afeto é transferida de uma representação para outra.

Uma pessoa pode sentir raiva de alguém diante de quem não consegue se posicionar e descarregar essa irritação em outra relação considerada mais segura. Pode ter medo de uma situação específica e concentrar a angústia em um objeto que aparentemente não guarda relação direta com o conflito original.

Freud observou o deslocamento de maneira muito importante no trabalho dos sonhos. Um elemento aparentemente insignificante pode receber uma carga afetiva que pertence a outra representação.

Na vida cotidiana, isso ajuda a compreender por que certas reações parecem desproporcionais ao acontecimento imediato. O fato presente pode ter recebido uma intensidade psíquica que vem de outro lugar.

A formação reativa

Na formação reativa, uma tendência considerada inaceitável é substituída conscientemente por uma atitude oposta.

Uma hostilidade intensa pode aparecer sob a forma de gentileza exagerada. Um desejo pode ser encoberto por uma condenação moral igualmente intensa. A expressão consciente não apenas esconde o impulso contrário, mas pode precisar ser mantida com bastante rigidez.

Isso não significa que toda gentileza esconda ódio ou que toda postura moral seja uma defesa. A psicanálise não trabalha com equivalências automáticas. O interesse está na intensidade, na rigidez, na repetição e nas contradições que aparecem no conjunto da vida psíquica.

Quando a atitude precisa ser sustentada de maneira inflexível, pode haver algo além da escolha consciente em funcionamento.

A regressão

A regressão diz respeito ao retorno a modos de satisfação ou funcionamento ligados a etapas anteriores do desenvolvimento psíquico.

Diante de frustrações importantes, o sujeito pode recorrer a formas antigas de lidar com o conflito, especialmente aquelas que em algum momento ofereceram satisfação ou segurança.

Freud relacionou a regressão às fixações produzidas ao longo do desenvolvimento psicossexual. Quando há pontos de fixação importantes, determinadas situações posteriores podem favorecer um retorno a essas formas anteriores de satisfação.

Não se trata simplesmente de “agir como criança”. A regressão é um conceito mais amplo e está relacionada ao percurso da libido e aos caminhos que ela pode retomar diante de obstáculos.

A racionalização

A racionalização ocorre quando o sujeito constrói explicações aparentemente coerentes para atitudes ou escolhas cujas determinações principais permanecem inconscientes.

A explicação pode fazer sentido, mas não necessariamente corresponde às forças que conduziram aquela decisão.

Uma pessoa pode apresentar argumentos muito bem organizados para justificar determinado comportamento e, ainda assim, deixar de reconhecer desejos, medos, rivalidades ou conflitos envolvidos naquela escolha.

Esse mecanismo mostra de maneira clara que a capacidade de explicar uma ação não significa conhecer todas as razões pelas quais ela aconteceu.

O Ego é capaz de produzir narrativas bastante convincentes sobre si mesmo.

A sublimação

A sublimação possui uma posição particular porque não funciona simplesmente como afastamento defensivo de um conteúdo.

Freud utiliza o conceito para pensar destinos pulsionais nos quais a energia ligada às pulsões encontra objetos e finalidades socialmente valorizados. Atividades artísticas, intelectuais e culturais podem receber investimentos dessa natureza. A pulsão não é simplesmente eliminada. Sua finalidade é modificada e encontra outra possibilidade de satisfação. Por isso, a sublimação teve um lugar importante na forma como Freud pensou a produção cultural. Parte da energia pulsional que não encontra satisfação direta pode participar da criação artística, do pensamento, da investigação e de outras realizações humanas.

Ainda assim, não é adequado transformar toda atividade produtiva em sublimação. Trabalhar muito, produzir arte ou dedicar-se intensamente a uma tarefa não basta para afirmar que estamos diante desse processo.

As defesas não aparecem isoladas

Na prática, raramente encontramos um único mecanismo funcionando sozinho.

Um sujeito pode recalcar determinado desejo, projetar parte do conflito em alguém e construir uma racionalização para explicar por que aquela relação se tornou insuportável. Outro pode utilizar formação reativa e deslocamento diante da mesma situação.

As defesas formam combinações próprias em cada pessoa.

Também podem mudar conforme o momento da vida, a intensidade da angústia e o tipo de conflito enfrentado.

É por isso que a clínica não deve se transformar numa procura por nomes. Identificar “qual mecanismo está sendo usado” tem pouco valor se isso não estiver relacionado à história, às associações e ao modo particular como aquele sujeito lida com seus conflitos.

Anna Freud e o estudo das defesas

Anna Freud teve papel fundamental na sistematização dos mecanismos de defesa.

Em O Ego e os Mecanismos de Defesa, ela deslocou parte da atenção para as operações realizadas pelo Ego diante das exigências pulsionais e das fontes de angústia. Seu trabalho não abandona a base freudiana, mas organiza de maneira mais detalhada fenômenos que já estavam presentes na obra do pai.

Uma contribuição importante está na percepção de que as defesas podem ser reconhecidas não apenas pelo conteúdo que o paciente traz, mas também pela maneira como fala, evita, interrompe, contradiz, justifica ou modifica determinados assuntos.

A resistência, nesse sentido, não é um acidente que atrapalha a análise. Ela também mostra como o Ego procura preservar determinadas formas de funcionamento.

Quando a defesa começa a produzir sofrimento

Não existe vida psíquica sem defesa.

A questão clínica aparece quando aquilo que um dia ajudou o sujeito a suportar determinado conflito passa a restringir excessivamente sua vida.

Uma defesa pode ter sido necessária em determinado momento. Pode ter protegido o Ego diante de uma experiência que não podia ser suportada de outra maneira. Anos depois, porém, essa mesma forma de funcionamento pode continuar sendo utilizada mesmo quando as circunstâncias já são diferentes.

A repetição defensiva pode então limitar relações, escolhas, sexualidade, trabalho e diferentes formas de satisfação.

O sujeito não permanece preso porque “não quer mudar”. Muitas vezes, ele repete porque aquela defesa se tornou uma solução antiga para um conflito que continua sem outra saída psíquica.

A defesa na clínica psicanalítica

A função do analista não é arrancar as defesas do paciente.

Uma defesa existe por alguma razão. Interpretá-la de maneira precipitada pode aumentar a resistência e fazer com que o Ego procure outras formas de proteção. Freud já advertia sobre a importância de trabalhar as resistências ao longo do processo e não simplesmente entregar ao paciente explicações prontas sobre seu inconsciente.

Na análise, interessa compreender o que aquela defesa protege, diante de qual conflito ela se organiza e qual quantidade de angústia poderia aparecer caso ela deixasse de funcionar.

Por isso, o trabalho não acontece pela guerra contra as defesas. Ele acontece pela investigação de suas funções, de suas repetições e do preço psíquico que algumas delas passaram a cobrar. O sujeito pode descobrir que aquilo que durante muito tempo pareceu fazer parte de sua personalidade também foi uma maneira de sobreviver a conflitos que não conseguiu resolver de outra forma.

E é nesse ponto que os mecanismos de defesa deixam de ser apenas conceitos teóricos. Eles passam a contar uma parte da história psíquica de cada pessoa.

Aglaé Santana de Oliveira

Psicanalista