Freud publicou A Interpretação dos Sonhos em 1900, embora a obra tenha sido concluída no final do século XIX. O livro ocupa um lugar decisivo na construção da psicanálise porque é nele que Freud apresenta de maneira extensa sua concepção do sonho como formação psíquica dotada de sentido. Para ele, o sonho não é um acontecimento aleatório produzido por um cérebro desligado da vida mental. Ele participa dos mesmos conflitos, desejos, censuras e mecanismos que organizam o restante da vida psíquica.
Freud chamou o sonho de uma via privilegiada para o conhecimento do inconsciente. Isso não significa que todo sonho revele diretamente aquilo que está recalcado. Pelo contrário, o sonho chega à consciência deformado. É justamente essa deformação que exige interpretação.
Uma das ideias centrais de Freud é a distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente.
O conteúdo manifesto é aquilo que o sonhador lembra ao acordar: cenas, pessoas, lugares, acontecimentos e imagens que compõem o sonho tal como ele pode ser narrado.
O conteúdo latente corresponde aos pensamentos, desejos, lembranças e conflitos que participaram da formação do sonho.
O trabalho analítico não consiste em substituir uma imagem por um significado pronto. Ele procura acompanhar como o conteúdo manifesto se relaciona com os pensamentos latentes a partir das associações do próprio sonhador.
Por isso, duas pessoas podem sonhar com a mesma coisa e produzir sentidos completamente diferentes.
Freud sustenta que o sonho é uma realização de desejo.
Essa afirmação costuma causar estranhamento porque muitas pessoas sonham com situações desagradáveis, perdas, medo, fracasso ou acontecimentos dolorosos.
O ponto é que a realização do desejo não precisa aparecer de maneira direta.
Em sonhos simples, especialmente em crianças, a relação pode ser evidente. Uma criança impedida de comer determinado alimento pode sonhar justamente com aquilo que desejava.
Nos sonhos adultos, a situação costuma ser mais complexa.
O desejo pode sofrer deformações porque entra em conflito com outras exigências psíquicas.
Por isso, aquilo que aparece no sonho não corresponde necessariamente à forma consciente do desejo.
Se determinados desejos pudessem aparecer diretamente, produziriam angústia e poderiam interromper o sono.
Freud entende que existe uma atividade de censura que participa da deformação do conteúdo.
O desejo procura satisfação, mas encontra resistência.
O resultado é um compromisso.
O sonho permite que alguma coisa se realize, porém de uma forma modificada o suficiente para ultrapassar a censura.
Essa é uma das razões pelas quais tantos sonhos parecem absurdos quando são lembrados.
O absurdo não significa ausência de sentido.
Pode ser justamente o resultado do trabalho necessário para que determinados pensamentos encontrem uma forma aceitável de aparecer.
Freud chamou de trabalho do sonho o conjunto de operações que transforma os pensamentos latentes no sonho manifesto.
Entre essas operações estão a condensação, o deslocamento e a consideração pela representabilidade.
Esses mecanismos não funcionam como decisões conscientes do sonhador.
Eles fazem parte do modo de funcionamento do processo primário.
Na condensação, vários pensamentos ou representações podem reunir-se numa única imagem.
Uma pessoa do sonho pode possuir características de várias pessoas conhecidas.
Um lugar pode parecer ao mesmo tempo a casa da infância e outro espaço completamente diferente.
Uma palavra pode reunir diferentes sentidos.
É por isso que um elemento aparentemente pequeno pode estar ligado a várias cadeias associativas.
O sonho concentra muito material em poucas imagens.
No deslocamento, a intensidade psíquica passa de uma representação para outra.
Algo que parecia muito importante nos pensamentos latentes pode aparecer quase sem destaque no sonho.
Ao mesmo tempo, um elemento aparentemente banal pode receber uma intensidade enorme.
Essa troca de importância ajuda a proteger o conteúdo contra a censura.
O afeto permanece, mas pode ficar ligado a outra representação.
Na análise, justamente aquilo que parece menos importante pode levar a associações decisivas.
Os pensamentos do sonho precisam ser transformados em algo que possa ser representado principalmente por imagens.
Ideias abstratas, relações complexas e pensamentos difíceis de visualizar precisam encontrar outra forma.
Isso explica parte da estranheza dos sonhos.
O sonho não argumenta como um texto teórico.
Ele mostra.
Mistura pessoas, lugares e tempos.
Cria cenas impossíveis.
Transforma relações abstratas em situações concretas.
A linguagem do sonho não é a mesma da vigília.
Ao acordar, ainda ocorre outro movimento.
A consciência tende a organizar aquilo que foi sonhado e transformá-lo numa narrativa um pouco mais coerente.
Esse processo é chamado de elaboração secundária.
Podemos preencher lacunas, ligar cenas e contar o sonho como se houvesse uma continuidade maior do que realmente existiu.
Isso significa que até mesmo o sonho lembrado já passou por algum trabalho de reorganização.
Por isso, pequenas incoerências merecem atenção.
Às vezes, aquilo que parece uma falha na narrativa é justamente um ponto importante.
Freud não interpreta o sonho consultando um dicionário de símbolos.
Esse é um ponto essencial.
Se alguém sonha com água, não existe um significado universal que possa ser aplicado automaticamente.
O analista pergunta pelas associações.
O que aquela água lembra?
Onde a pessoa já esteve num lugar parecido?
Quem estava presente?
Que pensamento surgiu ao recordar aquela cena?
Uma imagem do sonho funciona como ponto de partida para uma cadeia associativa.
O sentido não está pronto antes de o paciente falar.
Freud reconheceu que alguns elementos simbólicos aparecem de maneira recorrente em sonhos.
Ainda assim, ele não transforma a interpretação numa tabela fixa.
Mesmo quando um símbolo possui associações frequentes na cultura ou na teoria, ele precisa ser relacionado à história do sonhador.
Uma casa, uma escada, uma viagem ou um animal não têm necessariamente o mesmo significado para todos.
Sem as associações do paciente, a interpretação corre o risco de se tornar projeção do analista.
Se o sonho realiza desejos, por que existem pesadelos?
Freud enfrenta essa questão diretamente.
Uma possibilidade é que o desejo em questão seja incompatível com aquilo que o Ego admite.
O que seria satisfação para uma tendência inconsciente pode produzir angústia para outra parte do aparelho psíquico.
Isso mostra novamente que o sujeito não é uma unidade simples.
Um desejo pode ser simultaneamente procurado e temido.
A angústia pode aparecer justamente quando a deformação não foi suficiente para manter determinado conteúdo afastado.
Os sonhos traumáticos trouxeram uma dificuldade ainda maior para a tese da realização de desejo.
Pessoas que viveram experiências traumáticas podem sonhar repetidamente com aquilo que as fez sofrer.
Freud retoma esse problema posteriormente, sobretudo em Além do Princípio do Prazer.
Nesses casos, a repetição parece não obedecer simplesmente à busca de prazer.
O aparelho psíquico tenta dominar retroativamente uma experiência que não conseguiu ser suficientemente ligada no momento em que ocorreu.
Essa discussão levou Freud a ampliar sua compreensão sobre repetição e funcionamento pulsional.
Ela não elimina a teoria dos sonhos, mas mostra que a vida psíquica não pode ser explicada apenas pelo princípio do prazer.
Os sonhos infantis permitiram a Freud observar formas mais simples de realização de desejo.
Uma criança pode ser impedida de participar de um passeio e sonhar que foi.
Pode desejar uma comida e sonhar que está comendo.
Nesses casos, há menos deformação.
Com o desenvolvimento das proibições, das exigências morais e das defesas, o trabalho do sonho tende a se tornar mais complexo.
O desejo continua participando da formação do sonho, mas precisa encontrar caminhos indiretos.
Os acontecimentos do dia anterior também participam dos sonhos.
Freud chamou muitos desses elementos de restos diurnos.
Uma conversa, uma imagem vista rapidamente, uma preocupação ou uma experiência aparentemente sem importância pode fornecer material para o sonho.
Mas o resto diurno não explica sozinho por que aquele material foi escolhido.
Ele pode funcionar como ponto de ligação para pensamentos e desejos mais antigos.
Por isso, um pequeno acontecimento do dia pode abrir uma cadeia que chega muito longe na história do sujeito.
Freud encontra frequentemente material infantil nos sonhos.
Isso não significa que todo sonho seja uma lembrança disfarçada da infância.
Significa que desejos e conflitos antigos podem associar-se a acontecimentos recentes.
O presente oferece material.
A história anterior fornece outras ligações.
No sonho, tempos diferentes podem coexistir sem a organização cronológica da consciência.
Uma pessoa falecida pode estar viva.
Uma casa antiga pode conter objetos atuais.
O sonhador pode ser adulto e criança ao mesmo tempo.
Para o inconsciente, o tempo não funciona como para a consciência.
Freud não utiliza o sonho como instrumento de previsão.
A interpretação psicanalítica não procura descobrir se determinada coisa vai acontecer.
O sonho fala da vida psíquica do sonhador, não de acontecimentos futuros.
Quando alguém sonha com uma perda e depois algo semelhante acontece, a coincidência pode impressionar. Ainda assim, a pergunta psicanalítica continua sendo: por que aquele tema já possuía importância psíquica antes do acontecimento?
O interesse de Freud é o desejo, o medo, o conflito e a fantasia. Não a profecia.
Um sonho narrado em análise não deve ser retirado do restante da sessão.
Importa saber quando ele foi contado, o que estava sendo discutido, quais associações surgiram e qual relação ele mantém com a transferência.
O paciente pode sonhar com abandono justamente quando teme que o psicanalista se afaste. Pode sonhar com julgamento num momento em que imagina estar sendo criticado.
Pode esquecer um sonho depois de uma sessão particularmente difícil. Essas relações precisam ser construídas a partir do próprio material clínico. Não existe uma chave pronta.
Melanie Klein manteve a importância freudiana dos sonhos, especialmente em seu trabalho com crianças e adultos, mas ampliou a atenção para fantasias inconscientes, relações de objeto e ansiedades primitivas.
Em sua clínica, o sonho podia revelar não apenas desejos recalcados, mas também modos de relação com objetos internos, angústias persecutórias, culpa e tentativas de reparação.
Essa ampliação não elimina a contribuição de Freud. Parte dela.
Freud fornece a base metodológica: o sonho é uma formação do inconsciente que precisa ser trabalhada a partir das associações e dos conflitos do sujeito.
Talvez uma das diferenças mais importantes esteja aqui.
Interpretar um sonho não é descobrir uma resposta secreta escondida atrás dele. É reconstruir um trabalho.
Como aquelas imagens foram formadas?
Que pensamentos se condensaram?
Que afetos foram deslocados?
Que desejos encontraram resistência?
Que lembranças foram convocadas?
Que relação aquele sonho possui com o momento vivido pelo paciente?
A interpretação não precisa encerrar o sonho.
Às vezes, um único sonho pode continuar produzindo associações por muito tempo.
Freud retirou o sonho do campo da superstição e também da ideia de que seria apenas ruído mental. Ele mostrou que, durante o sono, o psiquismo continua trabalhando.
Desejos permanecem ativos. Conflitos continuam existindo. Lembranças encontram novas ligações. A censura não desaparece completamente.
E aquilo que não encontra passagem direta procura outras formas.
É por isso que o sonho pode parecer tão estranho e, ao mesmo tempo, tão pessoal.
Ele reúne pedaços da vida do sujeito de uma maneira que a consciência dificilmente organizaria acordada.
A psicanálise não pergunta apenas “o que este sonho significa?”. Pergunta algo mais interessante: o que foi necessário acontecer psiquicamente para que esse sonho assumisse justamente essa forma? É nessa investigação que o sonho deixa de ser uma imagem misteriosa e passa a ser reconhecido como uma produção do próprio sujeito.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista Freudiana