A teoria do desenvolvimento psicossexual é uma das formulações mais conhecidas de Freud e também uma das mais simplificadas. Muitas vezes ela é apresentada como uma sequência rígida de fases, quase como se cada etapa tivesse de ser “superada” de maneira perfeita. Em Freud, porém, o desenvolvimento é mais complexo. Cada fase corresponde a uma organização predominante da libido, isto é, a uma forma particular pela qual a satisfação se liga ao corpo, às relações com os objetos e aos conflitos próprios daquele momento.
A infância, para Freud, não é um período sem sexualidade. A sexualidade infantil existe desde cedo, mas não deve ser confundida com a sexualidade adulta. Ela aparece inicialmente de forma dispersa, ligada a diferentes zonas do corpo e a experiências de satisfação que acompanham necessidades básicas, como alimentação, evacuação, controle corporal e curiosidade sobre o próprio corpo.
Ao longo do desenvolvimento, essas formas de satisfação se reorganizam. Algumas podem perder importância, outras podem permanecer como pontos de fixação e outras podem retornar em momentos de conflito. É por isso que Freud não pensa o desenvolvimento psicossexual como uma escada que se abandona completamente a cada degrau.
A fase oral corresponde aos primeiros tempos da vida, quando a boca ocupa um lugar central nas experiências de satisfação.
A alimentação é obviamente importante, mas Freud observa que o prazer oral não se reduz à necessidade de nutrir-se. O bebê pode continuar sugando mesmo depois de estar alimentado. A sucção, o contato com o seio ou com a mamadeira e posteriormente outras formas de exploração pela boca passam a produzir satisfação própria.
Nesse momento, a relação com o objeto também começa a ser construída a partir dessas experiências. Aquele que alimenta não é apenas fonte de comida. Torna-se também fonte de presença, conforto, prazer e ausência.
Por isso, a oralidade está profundamente ligada às primeiras experiências de dependência.
A criança ainda depende quase inteiramente de outra pessoa para satisfazer suas necessidades. A presença e a ausência do objeto passam a ter importância psíquica crescente, e essa relação inicial participa da construção das formas posteriores de desejar e de se relacionar.
Freud não diz que todo hábito oral adulto seja simplesmente resultado de uma “fase oral mal resolvida”. Uma leitura desse tipo é mecânica demais. O conceito de fixação exige observar como determinada modalidade de satisfação permanece investida e de que maneira ela participa do funcionamento posterior.
Com o amadurecimento corporal e o processo de controle dos esfíncteres, a região anal ganha importância na organização da libido.
Agora surge algo novo: a criança começa a descobrir que pode reter ou expulsar. Há uma possibilidade de controle sobre algo que vem de seu próprio corpo.
Esse momento coincide frequentemente com as primeiras exigências mais explícitas dos adultos sobre disciplina, higiene e horário. A criança passa a perceber que aquilo que produz pode ser valorizado, rejeitado, exigido ou controlado pelos outros.
Freud relaciona essa fase a conflitos em torno de retenção, expulsão, domínio e oposição.
O interesse não está apenas nas fezes enquanto objeto concreto, mas no significado psíquico que pode ser atribuído ao ato de dar, guardar, oferecer ou recusar.
Mais tarde, Freud relacionou determinadas características, como ordem excessiva, obstinação e economia rígida, a possíveis ligações com formas de fixação anal. Isso não significa que pessoas organizadas ou econômicas tenham necessariamente uma “personalidade anal”. Trata-se de uma hipótese sobre como certas formas de satisfação e conflito podem deixar marcas no caráter.
Na fase fálica, os órgãos genitais passam a ocupar maior importância para a criança, embora ainda não exista a organização genital adulta.
É nesse período que Freud situa de maneira mais intensa o Complexo de Édipo e o Complexo de Castração.
A criança passa a demonstrar maior curiosidade sobre as diferenças corporais, sobre o nascimento, sobre as relações entre os pais e sobre aquilo que distingue homens e mulheres. Como não possui todas as informações, constrói teorias próprias.
Essas teorias infantis não devem ser tratadas apenas como erros de compreensão. Elas revelam como a criança tenta organizar aquilo que observa a partir de seus desejos e fantasias.
É também nesse período que os investimentos amorosos e as rivalidades parentais ganham maior complexidade.
No menino, Freud relaciona a dissolução do Édipo à angústia de castração. Na menina, formula um percurso diferente, que envolve a percepção da diferença anatômica e o deslocamento do investimento amoroso. Essa parte da teoria recebeu críticas importantes posteriormente, inclusive de autoras como Karen Horney, que questionaram a tendência de tomar o desenvolvimento masculino como referência principal.
O desenvolvimento psicossexual não pode ser compreendido apenas a partir das zonas erógenas. As relações com os objetos são igualmente importantes.
Durante o período edípico, a criança vive combinações de amor, rivalidade, ciúme e identificação.
Ela pode desejar a exclusividade de uma figura parental e, ao mesmo tempo, identificar-se com aquele que ocupa o lugar de rival. É justamente essa ambivalência que dá ao Édipo sua complexidade.
Com a dissolução do conflito edípico, parte desses investimentos sofre recalque e parte participa das identificações que irão contribuir para a formação do Ego e do Superego.
Assim, o desenvolvimento não envolve apenas abandonar determinadas formas de satisfação. Envolve também transformar vínculos, desejos e identificações.
Depois do período fálico, Freud descreve a latência.
Nesse momento, parte das forças sexuais infantis sofre recalque e outras encontram destinos diferentes. A energia pode ser dirigida com maior intensidade para atividades escolares, relações sociais, aprendizagem, brincadeiras e interesses culturais.
A latência não significa ausência completa de sexualidade.
A sexualidade infantil continua existindo, mas tende a manifestar-se de maneira menos direta.
Freud relaciona esse período ao desenvolvimento de sentimentos como vergonha, repugnância e exigências morais, que passam a exercer maior controle sobre determinadas manifestações pulsionais.
Também é nesse momento que processos de sublimação podem ganhar importância, permitindo que parte da energia pulsional encontre outros destinos.
Com a puberdade, ocorre uma reorganização importante da sexualidade.
As pulsões parciais, antes mais independentes, passam a ser reorganizadas sob a primazia genital. A sexualidade adquire uma forma diferente daquela encontrada na infância.
Isso não significa que tudo aquilo que veio antes desapareça.
As formas anteriores de satisfação permanecem como componentes da vida sexual. A oralidade, a analidade e outros modos de prazer não são eliminados pela organização genital.
A diferença é que passam a ocupar outra posição dentro da economia libidinal.
Freud pensa a genitalidade como uma organização mais ampla na qual as pulsões podem ser dirigidas ao objeto de maneira mais integrada. Ainda assim, o desenvolvimento nunca é completamente linear.
A ideia de fixação é fundamental para compreender essa teoria.
Em determinados momentos do desenvolvimento, uma quantidade importante de libido pode permanecer ligada a formas anteriores de satisfação.
Isso não significa necessariamente que houve um trauma evidente.
Uma fase pode tornar-se particularmente importante tanto por excesso de satisfação quanto por frustração intensa.
A libido mantém, então, uma ligação privilegiada com aquela organização.
Em situações posteriores de conflito, essa fixação pode tornar-se um ponto de retorno.
A regressão ocorre quando, diante de determinadas dificuldades, o funcionamento psíquico retorna a modos de satisfação ligados a etapas anteriores.
Freud utiliza esse conceito em diferentes sentidos, mas no desenvolvimento psicossexual ele está diretamente relacionado à fixação.
Quanto mais forte uma fixação, maior pode ser a possibilidade de regressão para aquele ponto diante de obstáculos posteriores.
É importante não transformar regressão em sinônimo de comportamento infantil.
Ela diz respeito a um movimento da libido para formas anteriores de organização.
Esse retorno pode aparecer em sintomas, fantasias, escolhas e modos de relação.
Uma das leituras mais equivocadas das fases psicossexuais é imaginar que uma pessoa saudável teria deixado completamente para trás a oralidade, a analidade e as formas infantis de satisfação.
Freud não pensa dessa maneira.
As etapas anteriores permanecem incorporadas à organização posterior.
O desenvolvimento não apaga sua própria história.
A sexualidade adulta conserva elementos de diferentes momentos da infância, reorganizados e combinados de maneiras particulares.
Por isso, cada sujeito apresenta uma composição singular.
Anna Freud ampliou o estudo do desenvolvimento infantil, sobretudo ao observar o funcionamento do Ego e suas defesas ao longo do crescimento.
Seu trabalho chamou atenção para o fato de que não basta observar apenas as pulsões. É preciso considerar também a capacidade do Ego de lidar com conflitos, frustrações e exigências da realidade em cada momento do desenvolvimento.
Ela mostrou que o desenvolvimento infantil não acontece de maneira uniforme.
Uma criança pode apresentar maior maturidade em determinado aspecto e funcionar de maneira mais regressiva em outro.
Essa observação ajuda a evitar uma leitura excessivamente rígida das fases.
Na clínica, as fases não servem para classificar pacientes como “orais”, “anais” ou “fálicos” de maneira simplificada.
O interesse está em perceber como determinadas formas de satisfação, dependência, controle, rivalidade, culpa e desejo foram organizadas ao longo da história do sujeito.
Uma pessoa pode apresentar enorme dificuldade com separações, outra pode viver sob necessidade intensa de controle, outra pode reagir com profunda angústia diante de rivalidade ou perda de posição.
Essas características só adquirem sentido quando relacionadas à história individual e às associações produzidas em análise.
O conceito de desenvolvimento psicossexual não oferece um catálogo de personalidades.
Ele oferece uma maneira de pensar como o corpo, o prazer, os objetos de amor e os conflitos infantis participam da construção da vida psíquica.
Talvez uma das contribuições mais importantes dessa teoria seja mostrar que a infância não desaparece simplesmente quando crescemos.
As primeiras experiências de satisfação, perda, dependência, rivalidade e proibição deixam marcas.
Essas marcas não determinam de maneira absoluta aquilo que alguém será, mas continuam participando de sua forma de desejar, amar e reagir aos conflitos.
A vida adulta não é uma ruptura completa com aquilo que veio antes.
Ela é também uma reorganização contínua daquilo que começou muito cedo.
É por isso que Freud encontra na sexualidade infantil uma das bases para compreender sintomas, escolhas amorosas, fantasias e repetições que aparecem muitos anos depois.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista