O Complexo de Édipo ocupa um lugar central na teoria freudiana porque reúne, num mesmo movimento, desejo, rivalidade, proibição, identificação e culpa. Freud não o pensou como uma história literal na qual toda criança simplesmente “quer casar com a mãe” ou “eliminar o pai”. Essa leitura empobrece muito o conceito.
O que está em jogo é a maneira como a criança organiza seus primeiros vínculos amorosos, suas rivalidades e suas identificações com as figuras parentais. É também nesse campo que começa a se tornar mais evidente que o desejo encontra limites e que amar alguém não significa possuí-lo.
Freud tomou o nome da tragédia grega de Édipo, que mata o pai e se casa com a mãe sem saber que são seus pais. O interesse de Freud, porém, não estava simplesmente na história de Sófocles, mas no fato de que aquele drama parecia tocar conflitos presentes na vida psíquica de muitas pessoas.
Ao formular o Complexo de Édipo, Freud procurou mostrar que os primeiros amores infantis não são neutros. A criança investe afetivamente nas figuras que cuidam dela, deseja proximidade, exclusividade e atenção. Ao mesmo tempo, percebe que essas figuras possuem relações e desejos que não se organizam apenas em torno dela.
É nesse ponto que amor e rivalidade podem aparecer juntos.
Nos primeiros anos de vida, as figuras parentais ocupam uma posição privilegiada. São elas que alimentam, protegem, acolhem e participam das primeiras experiências de satisfação da criança.
Por isso, não é estranho que se tornem também objetos de intenso investimento libidinal.
Para Freud, esses vínculos infantis participam da constituição das relações amorosas posteriores. Isso não significa que o adulto procure conscientemente uma cópia do pai ou da mãe. Significa que as primeiras formas de amar, desejar, depender, rivalizar e temer a perda deixam marcas.
A vida amorosa adulta não começa na idade adulta.
Na formulação mais conhecida de Freud, o menino pode dirigir desejos amorosos à mãe e experimentar o pai como rival. Ao mesmo tempo, esse mesmo pai pode ser amado, admirado e tomado como modelo de identificação.
Essa ambivalência é fundamental.
O pai não é apenas rival. Ele também é objeto de amor e identificação.
Por isso, o Complexo de Édipo não pode ser reduzido a uma oposição simples entre “amar um” e “odiar o outro”. O mesmo sujeito pode amar, invejar, admirar, temer e desejar ocupar o lugar de uma mesma pessoa.
Freud encontra aí uma das características importantes da vida psíquica: sentimentos contraditórios podem coexistir.
Em O Ego e o Id, Freud deixa claro que o Édipo pode assumir formas mais complexas do que sua versão considerada positiva.
A criança não se relaciona de maneira rígida com um dos pais como objeto amoroso e com o outro apenas como rival. Pode existir também o chamado Édipo negativo, no qual essas posições se invertem.
Freud chega a falar em um Complexo de Édipo completo, justamente porque tendências amorosas e identificatórias podem se dirigir a ambos os pais.
Isso é importante porque impede uma leitura excessivamente esquemática da teoria.
O Édipo descreve um campo de relações, fantasias e conflitos, não uma fórmula fixa que se repete da mesma maneira em todas as crianças.
No menino, Freud relaciona a dissolução do Complexo de Édipo à angústia de castração.
Diante da ameaça ligada aos desejos edípicos, o menino renuncia à pretensão de ocupar o lugar exclusivo junto à mãe. Essa renúncia não significa desaparecimento completo do desejo. Parte dessas tendências sofre recalque e parte se transforma em identificação.
Aquilo que não pode ser mantido como desejo dirigido ao objeto pode participar da constituição do próprio Ego.
É justamente por isso que o Édipo está tão intimamente ligado ao processo de identificação.
A criança não apenas deseja aqueles que ama. Ela também procura ser como eles.
A dissolução do Complexo de Édipo tem uma consequência decisiva: a formação do Superego.
Freud chamou o Superego de herdeiro do Complexo de Édipo.
As proibições que inicialmente vinham das figuras parentais passam a ser incorporadas psiquicamente. O que antes era uma autoridade externa torna-se também uma exigência interna.
A criança renuncia a determinados desejos, mas conserva algo das figuras parentais por meio da identificação.
É dessa maneira que proibições, ideais e exigências passam a fazer parte da própria vida psíquica.
Mais tarde, uma pessoa pode sentir culpa sem que ninguém esteja acusando-a. Pode exigir de si mesma algo que nenhum pai ou mãe real jamais exigiu. A autoridade já não precisa estar presente externamente: ela passou a existir dentro do próprio sujeito.
A formulação freudiana do Édipo feminino é mais complexa e também uma das partes mais discutidas de sua teoria.
Freud considerou que a menina inicialmente também teria a mãe como primeiro objeto de amor. Posteriormente, mudanças ligadas à percepção da diferença sexual e ao complexo de castração participariam do deslocamento do investimento amoroso em direção ao pai.
É nesse percurso que Freud introduz conceitos como inveja do pênis e a relação entre castração e Édipo feminino.
Essas formulações receberam críticas importantes dentro da própria psicanálise.
Karen Horney, por exemplo, questionou a tendência de tomar o desenvolvimento masculino como modelo a partir do qual a experiência feminina seria compreendida como falta. Ela chamou atenção para fatores sociais, culturais e para a própria experiência feminina, sem abandonar inteiramente o campo psicanalítico.
Essas divergências mostram que a teoria psicanalítica não permaneceu fechada sobre as primeiras formulações de Freud.
A identificação ocupa um lugar essencial no Édipo.
Identificar-se não significa simplesmente copiar o comportamento de outra pessoa.
Trata-se de uma forma mais profunda de apropriação psíquica de traços do outro.
A criança pode desejar ocupar o lugar do pai e, ao mesmo tempo, incorporar características dele. Pode amar a mãe e também identificar-se com ela. Essas identificações participam da constituição do Ego e do Superego.
Parte daquilo que chamamos posteriormente de personalidade foi construída também a partir dessas primeiras relações.
Não somos apenas aquilo que desejamos.
Somos também, em parte, aquilo que incorporamos daqueles que amamos, admiramos, tememos ou rivalizamos.
Quando Freud fala da dissolução do Complexo de Édipo, não está dizendo que toda marca desse período desaparece.
Ao contrário.
O Édipo deixa consequências importantes na organização psíquica.
As escolhas amorosas, as identificações, a formação do Superego e certas maneiras de lidar com rivalidade, autoridade e proibição podem conservar relações com esse período.
Isso não significa que cada conflito adulto deva ser explicado automaticamente pelo Édipo.
Essa seria uma utilização pobre da teoria.
Na clínica, interessa acompanhar como as experiências infantis participam daquilo que o sujeito vive hoje, sem transformar o conceito numa chave universal que explica tudo.
Algumas situações adultas podem reativar conflitos ligados à posição ocupada na relação com os pais.
Rivalidades profissionais podem adquirir uma intensidade incomum. Determinadas figuras de autoridade podem provocar submissão excessiva ou enfrentamento constante. Relações amorosas podem ser marcadas por ciúme, competição, necessidade de exclusividade ou medo intenso de substituição.
Esses fenômenos não provam, por si mesmos, a existência de um conflito edípico específico.
Mas podem levar a associações que mostram ligações com experiências infantis de amor, rivalidade e perda.
Uma pessoa pode descobrir, por exemplo, que não suporta dividir a atenção de quem ama. Outra pode entrar repetidamente em relações triangulares. Alguém pode se sentir sempre derrotado diante de figuras que representam autoridade.
O importante não é encaixar essas pessoas numa fórmula.
É compreender por que aquela posição se repete.
Um dos aspectos importantes do Édipo é a introdução de um terceiro elemento numa relação que a criança poderia desejar exclusiva.
Há alguém além dela. Esse terceiro rompe a fantasia de completude e mostra que o objeto amado possui outros vínculos, outros interesses e outros desejos.
A criança precisa lidar com essa descoberta. Ela não ocupa todos os lugares.
Não recebe toda a atenção. Não pode eliminar definitivamente o rival.
Essa experiência é difícil, mas participa da organização psíquica.
Reconhecer a existência do terceiro também significa começar a reconhecer que o outro possui uma vida que não está inteiramente submetida aos nossos desejos.
O Complexo de Édipo também ajuda Freud a pensar a ambivalência.
Podemos amar alguém e sentir raiva dessa mesma pessoa.
Podemos desejar proximidade e, ao mesmo tempo, querer afastá-la.
Podemos admirar alguém que também invejamos.
Na infância, essa contradição pode ser particularmente intensa porque as figuras parentais são, ao mesmo tempo, fonte de satisfação e de frustração.
O pai que protege também pode proibir. A mãe que cuida também pode retirar-se. A pessoa amada pode também ser aquela que impede uma satisfação.
Essa ambivalência não desaparece completamente na vida adulta.
Na clínica, o Complexo de Édipo não deve ser usado como resposta pronta.
Dizer a um paciente que seu conflito “é edípico” explica muito pouco se não se compreende como aquele conflito se organiza na história particular dele.
O conceito ganha valor quando ajuda a acompanhar relações entre desejo, rivalidade, identificação, culpa e proibição.
Esses elementos também podem aparecer na transferência.
O analista pode ser colocado, em determinados momentos, na posição de alguém que aprova, proíbe, abandona, rivaliza ou precisa ser conquistado.
O interesse não está em representar deliberadamente essas figuras, mas em perceber como posições antigas podem voltar a ser atualizadas na relação analítica.
Reduzir o Complexo de Édipo à frase “a criança deseja um dos pais e rivaliza com o outro” significa perder grande parte de sua importância.
O conceito trata também da entrada do indivíduo num mundo no qual existem outros desejos além do seu.
• Trata da experiência de rivalidade.
• Da impossibilidade de possuir inteiramente quem se ama.
• Da transformação do desejo em identificação.
• Da formação das proibições internas.
• Da culpa.
E da descoberta de que o amor não elimina a ambivalência.
Freud encontrou no Édipo uma forma de pensar como as relações infantis participam da constituição do sujeito muito depois de a infância ter terminado.
Não porque permaneçamos crianças escondidas dentro de corpos adultos, mas porque aquilo que foi vivido nos primeiros vínculos deixa marcas na maneira como desejamos, amamos, competimos, obedecemos, desafiamos e suportamos perder.
É por isso que o Complexo de Édipo permanece um dos conceitos mais conhecidos da psicanálise, e também um dos mais frequentemente simplificados.
Na teoria freudiana, ele não é uma pequena história familiar.
É um conflito que participa da própria organização da vida psíquica.
Aglaé Santana de Oliveira
Psicanalista