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Atos Falhos e Chistes: Quando o Inconsciente Fala por Outros Caminhos

Atos Falhos e Chistes: Quando o Inconsciente Fala por Outros Caminhos

Nem tudo o que dizemos obedece inteiramente àquilo que pretendíamos dizer. Freud percebeu isso muito cedo. Um nome trocado, uma palavra esquecida, um compromisso perdido da memória ou uma frase que sai diferente do planejado podem parecer acontecimentos banais. Muitas vezes são. Mas, em determinadas situações, esses pequenos desvios mostram que outra tendência psíquica interferiu na intenção consciente.

Os atos falhos e os chistes interessam à psicanálise justamente porque revelam que o inconsciente não aparece apenas nos grandes sintomas ou nos sonhos. Ele também pode participar daquilo que acontece no cotidiano, em acontecimentos aparentemente pequenos e até engraçados.

Freud dedicou obras inteiras a esses fenômenos. Em Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, investigou esquecimentos, trocas de palavras, lapsos de escrita e outros erros cotidianos. Poucos anos depois, em Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, de 1905, examinou de que maneira o humor pode permitir a expressão de pensamentos e desejos que encontrariam maior resistência se fossem ditos diretamente.

O ato falho não é simplesmente um erro

Um lapso pode ocorrer por cansaço, distração ou falta de atenção. Freud nunca precisou negar isso para sustentar sua hipótese.

O interesse psicanalítico começa quando aquele erro parece ter relação com alguma tendência psíquica presente naquele momento.

Uma pessoa pretende chamar alguém por um nome e diz o nome de outra. Esquece justamente o aniversário de alguém com quem mantém uma relação conflituosa. Perde repetidamente determinado objeto antes de um compromisso que afirma desejar. Troca uma palavra por outra e fica surpresa com o que acabou de dizer.

Nesses casos, Freud pergunta se o erro não teria sido produzido pelo encontro entre duas intenções: uma consciente, que buscava determinado resultado, e outra que não estava sendo reconhecida, mas conseguiu interferir.

O ato falho não é uma mensagem completamente transparente do inconsciente. Ele é uma formação na qual tendências diferentes se encontram.

Esquecer também pode ter sentido

O esquecimento ocupa um lugar importante na investigação freudiana.

Há coisas que esquecemos simplesmente porque nossa memória é limitada. Mas há esquecimentos cuja seletividade chama atenção.

Uma pessoa pode lembrar detalhes de uma conversa e esquecer justamente aquilo que a contrariou. Pode esquecer uma tarefa relacionada a alguém de quem está ressentida. Pode não se lembrar de um nome que possui alguma ligação associativa com uma experiência incômoda.

Freud analisa esses acontecimentos acompanhando as associações que surgem em torno do material esquecido.

Esse ponto é fundamental.

O psicanalista não deveria estabelecer previamente que todo esquecimento significa rejeição, hostilidade ou recalque. É preciso observar o que aparece quando o próprio sujeito começa a falar sobre aquilo.

Sem associação, o ato falho vira apenas pretexto para interpretação arbitrária.

Trocar palavras

Os lapsos de fala talvez sejam os exemplos mais conhecidos.

Alguém pretende dizer uma coisa e pronuncia outra. Às vezes a palavra substituta parece completamente estranha; em outras, chega perto demais de algo que a pessoa preferia não ter dito.

Freud percebe que o erro frequentemente mantém alguma relação sonora, semântica ou afetiva com aquilo que interfere na frase.

Duas cadeias de pensamento podem se cruzar.

Uma pessoa pode estar tentando ser cordial e, no meio da frase, deixar escapar uma hostilidade. Pode querer demonstrar segurança e produzir uma palavra ligada ao medo que procurava ocultar.

O lapso não significa que a palavra “errada” seja necessariamente a verdade e a intenção consciente seja falsa.

Essa oposição seria simplista.

Na vida psíquica, duas tendências podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Podemos gostar de alguém e sentir raiva dessa mesma pessoa. Podemos desejar um acontecimento e também temê-lo. O ato falho pode revelar justamente essa ambivalência.

O erro pode realizar uma intenção

Alguns atos falhos parecem curiosamente convenientes.

A pessoa se esquece de fazer aquilo que não queria fazer. Perde o endereço de um encontro que lhe causava desconforto. Atrasa-se repetidamente para uma atividade da qual diz gostar. Coloca um objeto importante em um lugar estranho e depois não consegue encontrá-lo.

Não seria adequado interpretar automaticamente esses comportamentos como manifestações inconscientes.

Mas, quando começam a se repetir e aparecem ligados a conflitos reconhecíveis, a pergunta psicanalítica se torna pertinente: o que naquele “acidente” também serviu a uma intenção?

Freud mostra que o sujeito pode produzir uma ação que conscientemente considera um erro e, ao mesmo tempo, satisfazer por meio dela uma tendência contrária.

Por isso, o ato falho pode ser entendido como uma espécie de compromisso entre forças psíquicas diferentes.

O inconsciente no cotidiano

Esse aspecto da teoria freudiana foi importante porque retirou o inconsciente de um lugar reservado apenas à doença.

O sujeito considerado saudável também esquece, troca palavras, produz lapsos e comete pequenas ações cuja motivação não conhece inteiramente.

A diferença entre funcionamento cotidiano e sintoma não é tão absoluta quanto se poderia imaginar.

Freud encontra nos pequenos acontecimentos da vida diária mecanismos semelhantes àqueles que observa nos sonhos e nos sintomas: condensação, deslocamento, interferência entre representações e compromisso entre tendências.

O cotidiano, então, passa a oferecer pequenos indícios de uma vida psíquica que não está inteiramente submetida ao controle consciente.

E o chiste?

O chiste ocupa outro lugar.

Ele não é simplesmente uma frase engraçada.

Freud se interessou por certas construções humorísticas porque percebeu que elas conseguiam dizer aquilo que, em circunstâncias comuns, talvez fosse censurado.

Uma frase espirituosa pode expressar agressividade sem assumir diretamente a forma de ataque. Pode introduzir uma referência sexual de maneira socialmente permitida. Pode ridicularizar uma autoridade ou revelar uma hostilidade que seria difícil assumir abertamente.

O riso aparece, nesse caso, ligado a uma redução temporária das restrições que normalmente pesam sobre determinadas ideias.

O chiste encontra um caminho econômico para a satisfação.

O prazer de dizer aquilo que não deveria ser dito

Existem piadas que perdem completamente a graça quando precisam ser explicadas.

Isso acontece porque parte de seu efeito está na rapidez.

O pensamento proibido encontra uma forma indireta de aparecer antes que a censura consiga tratá-lo como trataria uma afirmação direta.

Uma pessoa talvez não dissesse abertamente aquilo que diz numa piada. Sob a proteção do humor, porém, a mesma ideia pode ser apresentada e compartilhada.

Freud relaciona esse prazer a uma economia de inibição.

Uma quantidade de energia que seria utilizada para manter determinado conteúdo sob controle deixa, por um instante, de ser necessária. Essa economia participa do prazer experimentado no chiste.

O riso não é apenas reação intelectual à criatividade da frase.

Há também uma descarga.

Chistes tendenciosos

Freud diferencia formas de chiste e dá importância especial aos chamados chistes tendenciosos.

Neles, o humor serve claramente a uma tendência.

Pode haver uma tendência agressiva, sexual, obscena ou hostil. A piada permite que algo seja dirigido ao outro sem assumir completamente a responsabilidade de tê-lo dito.

“Foi só uma brincadeira” pode funcionar como proteção posterior.

Isso não significa que toda piada revele uma verdade profunda escondida.

Mas algumas oferecem uma forma socialmente tolerada de satisfazer impulsos que encontrariam resistência se aparecessem sem disfarce.

É justamente por isso que certas brincadeiras podem ferir tanto.

O humor não elimina a agressividade apenas porque provoca riso.

A agressividade no humor

É comum pensar no humor como algo necessariamente leve.

Freud mostra que ele pode carregar bastante hostilidade.

Um grupo pode rir de alguém, diminuí-lo, transformá-lo em objeto de ridículo e ainda assim manter a aparência de brincadeira. Uma crítica pode ser muito mais violenta quando formulada como piada do que quando dita diretamente.

O chiste oferece uma vantagem: permite a satisfação da agressividade e, ao mesmo tempo, dificulta a resposta de quem foi atingido.

Se a pessoa se ofende, pode ouvir que “não sabe brincar”.

A forma humorística não apaga o conteúdo agressivo.

Às vezes, apenas o torna mais fácil de circular.

Sexualidade e chiste

O mesmo pode ocorrer com conteúdos sexuais.

Temas que seriam considerados impróprios ou constrangedores podem aparecer disfarçados em duplo sentido, trocadilhos e insinuações.

A técnica do chiste permite que a censura seja parcialmente contornada.

Freud observa que o prazer não está apenas no conteúdo sexual em si, mas também no êxito de ter conseguido expressá-lo por um caminho indireto.

Há satisfação tanto na tendência quanto na forma engenhosa que permitiu sua expressão.

Por isso, o chiste também guarda uma proximidade com o trabalho do sonho.

Ambos podem condensar, substituir, deslocar e produzir sentidos múltiplos numa mesma representação.

O terceiro que ri

Há uma diferença interessante entre o chiste e muitas outras formações do inconsciente.

O chiste frequentemente precisa de outra pessoa.

Alguém produz a piada, alguém é ou não seu alvo e alguém precisa reconhecê-la como engraçada.

O prazer torna-se compartilhado.

A presença do terceiro pode confirmar que aquilo que dificilmente seria dito de maneira direta encontrou uma forma aceitável de circulação.

O riso do outro participa da satisfação.

Isso ajuda a compreender por que algumas piadas funcionam em determinado grupo e fracassam completamente em outro.

A censura também é social.

Humor não é ausência de conflito

Uma pessoa pode usar o humor de várias maneiras.

Pode brincar com o próprio sofrimento, transformar uma situação dolorosa em algo suportável ou utilizar a ironia para manter distância de sentimentos difíceis.

Nem todo humor corresponde ao chiste no sentido técnico trabalhado por Freud, e nem toda pessoa que faz piadas está escondendo alguma coisa específica.

Ainda assim, o humor pode ocupar uma função defensiva.

Alguém pode rir sempre que chega perto de um assunto doloroso. Pode transformar qualquer experiência emocional em piada. Pode manter a sessão inteira num registro engraçado sempre que algo mais difícil começa a aparecer.

Nesse caso, não interessa condenar o humor.

Interessa compreender por que ele se torna necessário justamente naquele momento.

Atos falhos e chistes não são iguais

Apesar de estarem relacionados ao inconsciente, os dois fenômenos não devem ser confundidos.

No ato falho, uma intenção consciente sofre interferência de outra tendência, produzindo um erro, um esquecimento ou uma ação diferente da planejada.

No chiste, existe elaboração.

Há uma construção que consegue produzir prazer justamente por permitir uma expressão indireta de conteúdos submetidos a inibição.

Um parece escapar apesar da intenção consciente.

O outro utiliza uma forma engenhosa para encontrar passagem.

Nos dois casos, porém, Freud mostra que a linguagem não pertence completamente ao domínio da consciência.

Na clínica

Quando um paciente troca uma palavra, esquece algo ou ri num momento inesperado, o analista não precisa correr para interpretar.

Às vezes, um erro é apenas um erro. Às vezes, o riso é apenas riso.

A psicanálise não ganha profundidade transformando cada pequeno acontecimento numa revelação.

O valor aparece quando o fenômeno se liga às associações do próprio paciente.

“O que lhe veio à cabeça quando percebeu que disse esse nome?”

“Você riu justamente quando falou disso.”

Uma intervenção simples pode permitir que a pessoa continue falando e descubra relações que não estavam evidentes.

O sentido não precisa ser colocado pelo analista antes de ser encontrado na própria fala.

Freud e a seriedade das pequenas coisas

Há algo muito interessante nesses dois trabalhos de Freud: ele leva a sério aquilo que normalmente descartamos.

Um esquecimento. Uma troca de palavra. Uma piada. Um pequeno erro.

Coisas tão comuns que quase nunca paramos para pensar nelas.

Freud não afirma que tudo possui um significado oculto esperando para ser decifrado. O que ele mostra é mais desconcertante: nossas intenções conscientes não são as únicas forças participando daquilo que fazemos e dizemos.

Podemos revelar hostilidade enquanto tentamos ser educados. Podemos esquecer aquilo que não queremos fazer. Podemos rir de uma ideia que não admitiríamos seriamente.

Podemos cometer um erro que, curiosamente, satisfaz alguma coisa.

O inconsciente não precisa anunciar sua presença. Às vezes, ele troca uma palavra. Às vezes, esquece um nome. E, em outras, conta uma piada.

Aglaé Santana de Oliveira

Psicanalista