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A Cura pela Fala: Como Trabalha a Psicanálise na Prática

A Cura pela Fala: Como Trabalha a Psicanálise na Prática

A expressão "cura pela palavra" foi inventada por Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim, paciente de Josef Breuer no início da década de 1880. Ela se referia ao alívio que vivenciava ao falar a respeito de suas experiências durante o tratamento. Freud dispôs dessa intuição e a transformou em método: a psicanálise, um tratamento que age pela palavra e pela escuta em uma relação singular entre duas pessoas.

Mas o que ocorre, de fato, quando alguém entra em análise? Como palavras conseguem realizar transformações reais no sofrimento psíquico? Tais questões requerem respostas concretas.

O primeiro contato

O processo analítico inicia antes mesmo da primeira sessão. A decisão de procurar um analista, na maioria das vezes, surge em momentos de sofrimento, de impasse ou de insatisfação persistente. “Pode ser um sintoma definido, como crises de ansiedade, insônia ou depressão, ou pode ser algo mais difuso: uma sensação de vazio, de repetição, de não conseguir viver plenamente”.

Início do tratamento

As primeiras sessões são um período de avaliação recíproca. Nas sessões iniciais, o analista escuta o modo como o paciente mostra seu sofrimento, seus conflitos e os motivos que o levaram a procurar análise. Esse período possibilita observar as condições para o desenvolvimento do trabalho analítico e definir os elementos do enquadre. O paciente, por sua vez, vivencia o método, verifica se consegue falar livremente e se a relação com aquele profissional lhe possibilita abertura.

Esse período pode durar algumas sessões ou se prolongar por semanas. A decisão de começar uma análise é um compromisso importante, e é preciso que ambas as partes estejam convictas de que existem condições para o trabalho.

O setting analítico

O setting, ou enquadre, da psicanálise é constituído por elementos que podem aparentar simples, porém têm funções específicas.

O divã

Na análise tradicional, o paciente se deita em um divã, e o analista se senta atrás dele, fora de seu campo de visão. Tal disposição tem um motivo: ao não enxergar o analista, o paciente fica mais livre para associar sem se inquietar com as reações do outro. A ausência do contato visual restringe a inibição e facilita o acesso a pensamentos, fantasias e lembranças que, cara a cara, poderiam ser censurados.

A frequência das sessões

Na psicanálise clássica, Freud atuava com sessões frequentes. A regularidade propicia a continuidade das associações e o desenvolvimento do trabalho transferencial. Nos dias de hoje, a frequência é determinada levando em conta as condições do tratamento, o enquadre apresentado pelo analista e as possibilidades do paciente.

A duração do tratamento

A psicanálise não tem duração fixa. Distinta de terapias breves e protocolizadas, ela se dispõe pelo tempo necessário. Uns tratamentos levam dois ou três anos; outros se estendem por mais tempo. A psicanálise não estipula preliminarmente o tempo necessário para o tratamento. Sua duração está relacionada à particularidade do caso, às resistências, às repetições e ao modo como o trabalho analítico se desenvolve.

Freud relacionou a análise a uma partida de xadrez: é provável descrever as jogadas de início e as de término, porém o meio do jogo é singular a cada partida. Toda análise tem seu ritmo certo, e buscar apressá-la geralmente gera resultados superficiais.

O que acontece em uma sessão

Uma sessão analítica dura, geralmente, cinquenta minutos. O paciente se acomoda e fala. A instrução essencial é simples: diga tudo o que lhe vier à cabeça, sem escolher, sem censurar, sem organizar. Esse é o princípio da associação livre.

Na prática, alcançar esse princípio é difícil. O paciente fala a respeito do que ocorreu no dia, a respeito de um sonho que teve, a respeito de uma lembrança que surgiu, a respeito do que está sentindo naquele instante. Eventualmente, fala a respeito do analista, a respeito da própria análise, a respeito da dificuldade de falar. Por vezes, silencia.

O analista escuta com atenção flutuante, procurando não privilegiar preliminarmente nenhum elemento da fala. Observa as repetições, contradições, interrupções, lapsos, silêncios e mudanças no modo de falar. Suas intervenções podem assumir o modo de esclarecimentos, assinalamentos, confrontações ou interpretações, de acordo com o desenvolvimento do tratamento. Suas intervenções são específicas. Pode repetir uma palavra que o paciente utilizou, apontar uma contradição, apontar uma interpretação ou apenas ficar em silêncio.

Como a mudança acontece

A mudança na psicanálise não segue um padrão linear de problema e solução. Ela atua por caminhos menos óbvios e constantemente surpreendentes.

O trabalho de elaboração

Na análise, identificar intelectualmente um conflito não é o bastante para modificar seus efeitos. As resistências e os modos de repetição precisam ser trabalhadas por todo processo, inclusive no momento em que se atualizam na relação com o analista. Freud nomeou esse trabalho de elaboração: um percurso em que o paciente volta várias vezes aos mesmos conflitos, não como pura repetição de um conteúdo, mas como parte do trabalho indispensável para enfrentar suas resistências.

A mudança não ocorre em um momento de revelação, mas por meio de um processo lento e trabalhoso nomeado de elaboração (durcharbeiten, em alemão). O mesmo conflito precisa ser revisitado frequentemente, em diferenciados contextos, sob diferenciados ângulos, para que perca seu poder de limitação sobre a pessoa. Freud equiparou a elaboração ao trabalho de luto: é necessário tempo para que o psiquismo se reorganize.

A transferência como motor da mudança

A transferência é um dos eixos essenciais do tratamento.

A transferência acontece quando desejos, expectativas, afetos e modos de relação inconscientes são atualizados na relação com o analista. Ela não é um empecilho externo à análise: vira parte do próprio trabalho. Ao ser identificada e interpretada, possibilita que conflitos que o paciente somente mencionaria como pertencentes ao passado apareçam vivos no tratamento. Ao relembrar na relação com o analista seus conflitos mais antigos, o paciente tem a chance de entendê-los e, gradativamente, de modificá-los.

A transferência não é um ensaio. O que o paciente sente pelo analista é verdadeiro, mesmo que seja uma reedição de algo vivido anteriormente. Trabalhar a transferência quer dizer identificar essas reedições e entender sua origem.

Os efeitos do trabalho analítico

Os efeitos de uma análise não podem ser estabelecidos antecipadamente nem são iguais para todos. O trabalho pode gerar modificações na relação do paciente com seus sintomas, conflitos e repetições, conforme aspectos inconscientes passam a ser reconhecidos e elaborados. Isso não quer dizer obter pleno domínio sobre a vida psíquica, mas aumentar as alternativas de lidar com o que anteriormente se mostrava somente como sofrimento, inibição ou repetição.

A cura pela fala não acontece pelo simples ato de narrar acontecimentos nem pela obtenção de conselhos. Ela depende do trabalho executado por associação livre, escuta analítica, transferência, interpretação das resistências e elaboração. Consiste num processo que não apresenta respostas prontas, mas averigua os conflitos inconscientes que participam da formação do sofrimento e das repetições da pessoa.