De todos os conceitos formulados por Freud, a transferência (Übertragung) talvez seja o que mais profundamente distingue a psicanálise de outras abordagens terapêuticas. Trata-se do fenômeno pelo qual o paciente, no contexto da relação analítica, revive com o analista padrões afetivos, fantasias e modos de relação que se originaram em suas experiências infantis. Longe de ser um obstáculo ao tratamento, a transferência é o terreno onde o trabalho analítico se torna possível.
Freud não inventou a transferência; ele a reconheceu como um fenômeno clínico que se impunha a ele durante o trabalho com seus pacientes. A história mais conhecida nesse percurso é a de Anna O., paciente de Josef Breuer que desenvolveu um forte vínculo afetivo com seu médico durante o tratamento. Breuer, perturbado pela intensidade dos sentimentos que a paciente lhe dirigia, interrompeu o caso. Freud, ao refletir sobre esse e outros episódios semelhantes, compreendeu que aqueles sentimentos não eram dirigidos propriamente ao médico como pessoa, mas repetiam configurações afetivas que a paciente havia vivido anteriormente, especialmente com figuras parentais.
Nos "Estudos sobre a Histeria" (1895) e, de forma mais elaborada, no caso Dora (1905), Freud identificou a transferência como um fenômeno regular do tratamento psicanalítico. Inicialmente, ele a considerava uma forma de resistência, pois o paciente, ao investir afetivamente no analista, desviava-se do trabalho de rememoração. Contudo, Freud percebeu rapidamente que a transferência era não apenas inevitável, mas necessária para que o tratamento avançasse.
A transferência pode ser definida como o processo pelo qual desejos, expectativas, temores e padrões relacionais inconscientes são deslocados de seus objetos originais (geralmente as figuras parentais da infância) para a figura do analista. O paciente não apenas lembra de seus conflitos infantis: ele os revive ativamente na relação com o analista.
Freud distinguiu duas formas fundamentais de transferência:
A transferência positiva se manifesta como sentimentos de afeto, admiração, confiança ou amor dirigidos ao analista. Em sua forma moderada, ela favorece o trabalho analítico, pois o paciente se dispõe a colaborar e a sustentar um processo que é muitas vezes doloroso. Quando assume uma forma intensa e erotizada, porém, pode tornar-se uma resistência, na medida em que o paciente passa a buscar a satisfação amorosa com o analista em vez de trabalhar seus conflitos.
A transferência negativa se expressa como hostilidade, desconfiança, desprezo ou raiva em relação ao analista. Embora seja mais difícil de manejar clinicamente, a transferência negativa é tão valiosa quanto a positiva. Ela traz à tona padrões de agressividade, rivalidade e ressentimento que o paciente carrega consigo e que frequentemente prejudicam suas relações fora da análise.
Na prática, a transferência raramente é puramente positiva ou negativa. Ela oscila, se transforma e combina afetos contraditórios, refletindo a ambivalência que caracteriza a vida afetiva humana.
A transferência não se anuncia. Ela se instala silenciosamente e se expressa de formas variadas, algumas sutis, outras evidentes.
O paciente pode sentir que o analista é a única pessoa que realmente o compreende, ou pode sentir que o analista o julga e o rejeita. Pode idealizar o analista como uma figura onisciente ou desvalorizá-lo como alguém incompetente. Esses afetos dizem menos sobre o analista real e mais sobre as figuras internas do paciente.
Atrasos repetidos, esquecimentos de sessões, dificuldade para associar livremente, um súbito interesse pelo analista como pessoa (perguntas sobre sua vida, sua família, seus gostos) são manifestações transferenciais que merecem atenção clínica.
É frequente que o analista apareça nos sonhos do paciente, às vezes de forma direta, outras vezes disfarçado em outras figuras. Fantasias sobre o analista fora das sessões, curiosidade sobre sua vida privada, sentimentos de ciúme em relação a outros pacientes: tudo isso constitui material transferencial.
Talvez a manifestação mais significativa da transferência seja a repetição. O paciente que se sentia rejeitado pelos pais pode interpretar qualquer silêncio do analista como rejeição. Aquele que precisava agradar para ser amado pode esforçar-se para ser o "paciente exemplar". A pessoa que vivia uma relação de submissão pode reproduzir essa posição na relação analítica. Esses padrões, quando reconhecidos e interpretados, abrem caminho para a mudança.
Trabalhar com a transferência exige do analista uma posição muito particular. Ele precisa se oferecer como suporte para as projeções do paciente sem se confundir com elas. Isso requer o que Freud chamou de abstinência: o analista não satisfaz as demandas transferenciais do paciente, nem responde com seus próprios afetos pessoais.
O instrumento principal do analista no trabalho com a transferência é a interpretação. Interpretar a transferência significa mostrar ao paciente que o que ele sente e faz na relação analítica repete padrões antigos, ajudando-o a perceber a diferença entre o analista real e a imagem que ele projeta sobre o analista.
Uma interpretação transferencial poderia assumir a seguinte forma: "Você está com raiva de mim agora, da mesma forma que sentia raiva do seu pai quando ele não lhe dava atenção." Essa interpretação liga o presente ao passado, o aqui-e-agora da sessão à história do paciente, permitindo que ele reconheça um padrão que se repete e compreenda sua origem.
Freud também reconheceu que o analista não é uma tela em branco inerte. Os sentimentos que o analista experimenta em relação ao paciente constituem a contratransferência. Inicialmente vista como um obstáculo a ser superado, a contratransferência passou a ser reconhecida, por autores pós-freudianos, como uma fonte de informação clínica. Os afetos despertados no analista podem indicar o que o paciente está comunicando inconscientemente.
Embora o conceito de transferência tenha sido desenvolvido no contexto clínico, Freud reconheceu que o fenômeno ocorre em todas as relações humanas. Transferimos para chefes, professores, cônjuges, amigos e autoridades padrões de relação que se originaram em nossas primeiras experiências afetivas. A diferença é que, fora da análise, essas transferências passam despercebidas e são atuadas sem reflexão.
O mérito da psicanálise está em criar as condições para que a transferência seja reconhecida, nomeada e elaborada. Ao fazer isso, o tratamento analítico permite que o paciente se liberte progressivamente da compulsão a repetir o passado e possa viver suas relações presentes com maior liberdade e autenticidade.
A transferência não é um conceito abstrato. É uma experiência viva, intensa e por vezes desconcertante, tanto para o paciente quanto para o analista. Aceitar que repetimos com nosso analista o que vivemos com nossas primeiras figuras de amor e ódio é o primeiro passo de um processo que pode nos libertar dessas mesmas repetições.