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O Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade

O Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade

A teoria freudiana propõe que o funcionamento mental é governado por princípios reguladores. Esses princípios não são regras impostas de fora, mas tendências intrínsecas ao aparelho psíquico, modos de funcionamento que orientam o fluxo da energia mental. Os dois princípios fundamentais, o do prazer e o da realidade, constituem uma das bases do pensamento psicanalítico, e sua relação mútua ilumina aspectos centrais da vida psíquica humana.

O princípio do prazer

O princípio do prazer (Lustprinzip) é a tendência primária do aparelho psíquico. Segundo esse princípio, a atividade mental busca evitar o desprazer e obter prazer. Freud vinculou prazer e desprazer a quantidades de excitação presentes no psiquismo: o desprazer corresponde ao aumento de excitação, e o prazer, à sua diminuição ou descarga.

O aparelho psíquico funciona, nesse nível mais primitivo, como um sistema que busca manter a quantidade de excitação tão baixa quanto possível. Quando surge uma tensão interna, seja por necessidade biológica, seja por estímulo pulsional, o princípio do prazer impele o psiquismo a buscar a descarga imediata dessa tensão. O modelo mais elementar é o do bebê que sente fome: a tensão da necessidade gera desprazer, e o psiquismo se orienta para a satisfação que reduzirá essa tensão.

O funcionamento do processo primário

O princípio do prazer governa o que Freud chamou de processo primário, o modo de funcionamento do inconsciente. No processo primário, a energia psíquica circula livremente, buscando a descarga mais rápida e direta possível. As características do processo primário incluem o deslocamento (a energia se transfere de uma representação a outra), a condensação (múltiplas representações se fundem numa só) e a satisfação alucinatória do desejo (o psiquismo, em vez de buscar o objeto real de satisfação, alucina a satisfação, como acontece nos sonhos).

O processo primário desconhece a lógica, a negação, a temporalidade e a contradição. É o modo de funcionamento que se manifesta nos sonhos, nos lapsos e nos sintomas neuróticos. A criança que alucina o seio na ausência da mãe está sob o domínio do processo primário e do princípio do prazer.

O princípio da realidade

A satisfação alucinatória, porém, não alimenta. O psiquismo precisa, eventualmente, lidar com o mundo externo para obter satisfação real. É aí que entra o princípio da realidade (Realitätsprinzip).

O princípio da realidade não se opõe ao princípio do prazer; ele o modifica e o serve. Freud foi explícito: o princípio da realidade não abandona a intenção de obter prazer. Ele apenas substitui o prazer imediato e incerto por um prazer adiado, mas mais seguro. O que muda é o caminho, não o destino.

O funcionamento do processo secundário

O princípio da realidade instaura o processo secundário, um modo de funcionamento mental mais ordenado. A energia psíquica, em vez de circular livremente, é ligada a representações estáveis. O pensamento se torna possível como ação experimental, como um ensaio em pequenas quantidades de energia antes da ação propriamente dita.

Com o processo secundário surgem funções como a atenção, a memória, o juízo de realidade (a capacidade de distinguir entre uma percepção real e uma representação interna) e a capacidade de adiar a descarga motora. O sujeito deixa de alucinar a satisfação e passa a buscar, no mundo externo, os meios reais de satisfação.

Desenvolvimento e socialização

A instalação do princípio da realidade é um marco no desenvolvimento psíquico. Ela corresponde ao processo de adaptação ao mundo externo e está intimamente ligada à educação e à socialização. A criança aprende progressivamente que nem todo desejo pode ser satisfeito imediatamente, que existem condições externas a considerar, que a espera pode ser necessária.

Mas essa transição nunca é completa. O princípio do prazer mantém seu domínio em setores inteiros da vida psíquica. A fantasia, a arte, o devaneio e, acima de tudo, o sonho permanecem como territórios onde o princípio do prazer reina de forma relativamente livre. A capacidade de fantasiar, de imaginar satisfações, é uma conquista psíquica que compensa parcialmente as renúncias impostas pela realidade.

A tensão entre os dois princípios

A vida psíquica se desenrola no campo de tensão entre esses dois princípios. O sujeito maduro é aquele que desenvolveu a capacidade de mediar entre as exigências pulsionais e as condições da realidade, encontrando formas de satisfação que contemplem ambos os registros. Mas esse equilíbrio é sempre instável, sempre ameaçado.

A neurose pode ser entendida, em certa medida, como uma perturbação dessa mediação. O neurótico é alguém para quem a satisfação pulsional se tornou tão ameaçadora que as defesas contra ela se rigidificaram, restringindo excessivamente as possibilidades de prazer. Os sintomas neuróticos representam retornos do princípio do prazer por vias distorcidas, satisfações substitutivas que são ao mesmo tempo expressão e negação do desejo.

Além do princípio do prazer

Em 1920, Freud publicou Além do Princípio do Prazer (Jenseits des Lustprinzips), uma obra que provocou uma reviravolta na teoria psicanalítica. A pergunta que motivou o texto era simples de formular: se o aparelho psíquico busca prazer e evita desprazer, como explicar fenômenos que contrariam essa tendência?

A compulsão à repetição

Freud observou que certos pacientes pareciam compelidos a repetir experiências dolorosas. Nos sonhos traumáticos, o sujeito retornava repetidamente à cena do trauma, revivendo o desprazer ao invés de satisfazer desejos. Na transferência analítica, padrões destrutivos de relacionamento se repetiam com uma regularidade que desafiava a lógica do prazer. As crianças, no jogo, repetiam experiências desagradáveis (como o célebre jogo do fort-da, em que o neto de Freud atirava e recuperava um carretel, encenando a partida e o retorno da mãe).

Freud concluiu que havia algo além do princípio do prazer, uma tendência mais fundamental do que a busca de satisfação. Ele a chamou de compulsão à repetição (Wiederholungszwang), uma força que obriga o psiquismo a retornar a estados anteriores, independentemente do prazer ou desprazer envolvido.

A pulsão de morte

A compulsão à repetição levou Freud à formulação mais controversa de toda a sua obra: a hipótese da pulsão de morte (Todestrieb). Se a tendência mais fundamental do psiquismo é o retorno a estados anteriores, o estado mais anterior de todos é o inorgânico, o estado anterior à vida. Freud propôs que, ao lado das pulsões de vida (Eros), que buscam unir, construir, complexificar, existe uma pulsão de morte que busca dissolver, destruir, retornar ao inorgânico.

Essa dualidade pulsional entre Eros e pulsão de morte substituiu a dualidade anterior entre pulsões sexuais e pulsões do ego. O princípio do prazer, nessa nova formulação, está a serviço da pulsão de morte, pois busca reduzir a excitação ao mínimo, e a pulsão de morte busca o nível zero de excitação.

Implicações clínicas

A hipótese de algo além do princípio do prazer tem implicações clínicas profundas. Ela ajuda a compreender por que certos pacientes parecem sabotar seu próprio tratamento, por que relações destrutivas se repetem, por que há pessoas que parecem atraídas por situações que lhes causam sofrimento. A reação terapêutica negativa, na qual o paciente piora justamente quando melhora na análise, encontra nessa formulação uma possibilidade de compreensão.

Os dois princípios na clínica

Na prática analítica, a relação entre princípio do prazer e princípio da realidade se manifesta de múltiplas formas. O setting analítico, com seu enquadre de horários, honorários e regras, representa uma moldura do princípio da realidade dentro da qual o princípio do prazer pode se manifestar com relativa liberdade na associação livre e na fantasia transferencial.

O amadurecimento que se busca em uma análise não é a supressão do princípio do prazer em favor da realidade. É a ampliação da capacidade do sujeito de encontrar satisfações reais, de tolerar frustrações inevitáveis sem recorrer a defesas excessivamente restritivas, e de reconhecer os próprios desejos sem ser dominado por eles. É, em suma, um equilíbrio mais flexível e menos custoso entre as exigências do prazer e as condições do mundo.