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O Narcisismo na Teoria Freudiana

O Narcisismo na Teoria Freudiana

O conceito narcisismo tornou-se parte do vocabulário comum, frequentemente usado de modo impreciso para descrever vaidade ou egoísmo. Na psicanálise, o conceito tem um significado muito mais amplo e preciso. Freud introduziu o narcisismo como um conceito metapsicológico em 1914, no ensaio "Introdução ao Narcisismo", e o conceito contribuiu para a compreensão da constituição do Eu, das relações de objeto, das psicoses e de determinadas formas de investimento libidinal.

O mito e o conceito

O conceito vem do mito grego de Narciso, jovem que se apaixonou pela própria imagem refletida na água. O psiquiatra Paul Nacke foi o primeiro a utilizar o conceito em contexto clínico, em 1899, para representar um modo de perversão no qual a pessoa toma o próprio corpo como objeto sexual. Freud expandiu o conceito, tirando-o do campo da perversão e reconhecendo-o como um componente do desenvolvimento normal de todo ser humano.

Narcisismo primário

O narcisismo primário caracteriza um estado precoce do desenvolvimento no qual a criança investe toda a sua libido em si mesma, antes de ser capaz de dirigir investimentos libidinais a objetos externos. Então, não existe ainda uma diferenciação clara entre o Eu e o mundo, entre sujeito e objeto.

O bebê vive em um estado de onipotência, no qual suas necessidades são satisfeitas de modo que ele ainda não distingue entre si mesmo e a fonte de satisfação. O narcisismo primário é a condição a partir da qual o Ego se estabelecerá e os investimentos objetais se tornarão possíveis.

O Ego como reservatório de libido

Uma das contribuições centrais do ensaio de 1914 é a ideia de que o Ego opera como um reservatório de libido. A libido é capaz de ser investida no próprio Ego (libido narcísica) ou dirigida a objetos externos (libido objetal). Há um equilíbrio dinâmico entre esses dois tipos de investimento: quanto mais libido é dirigida aos objetos, menos resta para o Ego, e vice-versa.

Freud utilizou a imagem da ameba para ilustrar esse movimento: assim como a ameba emite pseudópodes que podem ser recolhidos de volta ao corpo, a pessoa projeta investimentos libidinais em direção ao mundo e pode retirá-los de volta para si. O apaixonamento é um exemplo de grande investimento objetal, no qual o sujeito "se esvazia" de libido narcísica em favor do objeto amado. A doença física, por outro lado, é uma condição que promove a volta da libido para o Ego, explicando por que o doente perde o interesse pelo mundo externo.

Narcisismo secundário

O narcisismo secundário acontece quando a libido, que havia sido investida em objetos externos, retorna ao Ego. Esse retorno pode ocorrer por diferentes razões: perda do objeto amado, frustração, desilusão ou impossibilidade de manter o investimento objetal.

Na melancolia, por exemplo, Freud relatou como a perda de um objeto amado pode levar à identificação do Ego com esse objeto. A libido que estava investida no objeto perdido não é redirecionada para outro objeto, mas volta ao Ego, onde a sombra do objeto cai sobre ele. A consequência é que os sentimentos ambivalentes (amor e ódio) dirigidos ao objeto passam a ser dirigidos ao próprio Ego, gerando a autodepreciação e a autopunição características da depressão.

Escolha objetal narcísica e anaclítica

Freud identificou dois tipos de escolha de objeto amoroso, baseados no modo como a libido é investida.

Na escolha objetal anaclítica (ou por apoio), a pessoa escolhe objetos de amor segundo o modelo das figuras parentais que proporcionaram cuidado e proteção na infância. Ama-se alguém que se parece com a mãe que alimentou ou ao pai que protegeu.

Na escolha objetal narcísica, a pessoa escolhe objetos de amor segundo o modelo de si mesmo. Ama-se alguém que se parece ao que a pessoa é, ao que ela foi, ao que ela gostaria de ser ou a alguém que foi parte de si mesmo. A escolha narcísica não é obrigatoriamente patológica; ela representa uma das vias normais do investimento amoroso.

Implicações clínicas da escolha objetal

Na clínica, observamos que muitos conflitos amorosos surgem da predominância de um tipo de escolha sobre o outro. Na escolha narcísica intensa, o parceiro é amado não pelo que ele é, mas pelo que representa para a economia narcísica da pessoa. Qualquer frustração vinda do parceiro é vivida como uma ferida narcísica, pois o que está em jogo não é somente o amor pelo outro, mas a estabilidade da imagem que o sujeito tem de si mesmo.

Fragilidade narcísica

Paradoxalmente, o que muitas vezes se nomeia como narcisismo excessivo é, na verdade, expressão de uma fragilidade narcísica profunda. A pessoa que precisa frequentemente de admiração, que reage com raiva ou desmoronamento diante de críticas e que não tolera a frustração está revelando não um excesso de amor-próprio, mas uma constituição narcísica frágil que depende do espelho do outro para se sustentar.

Ferida narcísica

A ferida narcísica é a vivência de ter a imagem de si mesmo ameaçada ou danificada. Pode ser desencadeada por críticas, rejeições, fracassos ou qualquer situação que confronte a pessoa com uma imagem de si diferente daquela que ele necessita manter.

Relevância contemporânea

Na teoria freudiana, o narcisismo possibilita entender os investimentos libidinais dirigidos ao Eu e aos objetos, bem como seus deslocamentos e retrações. Na clínica, esses movimentos podem aparecer na escolha amorosa, nas feridas narcísicas, na relação com o ideal e nos modos pelos quais a pessoa reage à perda, à frustração e à ameaça à imagem de si. O trabalho analítico considera essas manifestações em sua singularidade, principalmente quando se atualizam na transferência.