A ideia de que experiências da primeira infância deixam marcas duradouras na personalidade adulta é, hoje, amplamente aceita. Freud foi um dos primeiros a propor um modelo detalhado de como isso ocorre. O conceito de fixação, articulado à teoria das fases do desenvolvimento psicossexual, descreve o processo pelo qual a energia pulsional permanece parcialmente vinculada a um estágio anterior do desenvolvimento, influenciando de maneira persistente o modo como a pessoa se relaciona com o mundo.
Freud propôs que a sexualidade humana não começa na puberdade, mas na primeira infância. Essa foi uma de suas ideias mais controversas e mais influentes. A sexualidade infantil, diferente da sexualidade adulta, organiza-se em torno de zonas erógenas que se sucedem ao longo dos primeiros anos de vida: a boca, o ânus, os genitais. Cada fase corresponde a um modo particular de obter satisfação e de se relacionar com os objetos.
Na fase oral, a boca é o centro da experiência prazerosa. A amamentação, a sucção, o ato de levar objetos à boca constituem as primeiras formas de relação com o mundo. A relação com a mãe ou cuidador principal é mediada por essa zona, e a qualidade dessa experiência, se o bebê encontra satisfação suficiente ou se é frustrado de forma excessiva, deixa marcas na organização psíquica.
Com o treinamento esfincteriano, a atenção se desloca para o controle dos esfíncteres. A criança descobre que pode reter ou liberar, obedecer ou desafiar. Essa fase é marcada pela tensão entre autonomia e controle, entre o prazer de produzir e o prazer de reter. A forma como os pais conduzem esse processo, com maior ou menor rigidez, afeta a relação da criança com a autoridade, a ordem e a posse.
Na fase fálica, a atenção se volta para os órgãos genitais e para as diferenças entre os sexos. É nesse período que se desenvolve o complexo de Édipo, com toda a sua carga de desejo, rivalidade, medo e identificação. A resolução do Édipo, que envolve a renúncia aos desejos incestuosos e a identificação com o genitor do mesmo sexo, inaugura o período de latência e consolida a formação do superego.
A fixação ocorre quando uma quantidade significativa de energia psíquica permanece vinculada a uma fase do desenvolvimento que deveria ter sido ultrapassada. Isso pode acontecer por dois motivos aparentemente opostos: excesso de gratificação ou excesso de frustração em determinada fase.
Quando a criança encontra prazer excessivo em uma fase, pode haver relutância em abandoná-la. Quando, ao contrário, a frustração é intensa demais, a fase não é adequadamente elaborada, e o sujeito fica preso a ela. Em ambos os casos, parte da energia pulsional não segue o curso normal do desenvolvimento e fica, por assim dizer, retida.
A fixação não significa que a pessoa permaneça literalmente naquela fase. O desenvolvimento continua, mas carrega consigo pontos de fragilidade. Em momentos de estresse ou conflito na vida adulta, a tendência é regredir a esses pontos de fixação, reativando modos de funcionamento mais primitivos.
A partir da teoria da fixação, Freud e seus discípulos descreveram tipos de caráter associados a cada fase do desenvolvimento. Esses tipos não são categorias rígidas, mas tendências que se manifestam em maior ou menor grau.
A fixação na fase oral produz traços que giram em torno da dependência, da passividade e da oralidade. Pessoas com fixação oral podem apresentar tendência à dependência emocional, buscando nos outros o mesmo tipo de sustento que o bebê busca na mãe. Há uma inclinação para comportamentos orais: comer em excesso, fumar, beber, falar compulsivamente.
Karl Abraham, discípulo de Freud, distinguiu duas variantes do caráter oral. A fixação na subfase oral receptiva produz traços de otimismo, generosidade e dependência passiva: a expectativa de que o mundo vai prover. A fixação na subfase oral sádica, associada à dentição e à mordida, produz traços de agressividade verbal, sarcasmo, inveja e uma tendência a "devorar" o outro na relação.
Na clínica, a fixação oral se manifesta em pacientes que estabelecem relações de forte dependência com o analista, que vivem a separação entre sessões com angústia intensa e que tendem a interpretar a relação terapêutica em termos de ser alimentado ou privado.
A fixação na fase anal produz o que ficou conhecido como a tríade anal: ordem, parcimônia e obstinação. A pessoa com caráter anal tende a ser meticulosa, controladora, preocupada com limpeza e organização, apegada ao dinheiro e resistente a mudanças.
Freud associou essas características ao treinamento esfincteriano. A criança que foi submetida a um controle muito rígido pode reagir de duas formas: submetendo-se, o que gera o caráter anal retentivo, marcado pela avareza, pelo perfeccionismo e pela rigidez; ou rebelando-se, o que gera o caráter anal expulsivo, marcado pela desordem, pelo desperdício e pela provocação.
Na prática clínica, pacientes com traços anais proeminentes frequentemente demonstram grande necessidade de controlar o setting: chegam pontualmente, questionam o enquadre, resistem a situações de incerteza. Sua relação com o dinheiro e com o tempo pode revelar muito sobre os conflitos subjacentes.
A fixação na fase fálica está ligada ao complexo de Édipo e produz traços relacionados à rivalidade, à exibição e à ambição. A pessoa com caráter fálico tende a ser competitiva, sedutora, preocupada com poder e reconhecimento. Há uma necessidade constante de provar o próprio valor e uma sensibilidade particular à humilhação.
Quando a resolução do Édipo é incompleta, podem persistir dificuldades com a autoridade, oscilações entre grandiosidade e sentimento de inadequação, e conflitos na esfera da sexualidade e dos relacionamentos amorosos.
Fixação e regressão são conceitos complementares. A fixação marca os pontos de vulnerabilidade; a regressão é o movimento de retorno a esses pontos quando o sujeito enfrenta dificuldades que não consegue elaborar com seus recursos atuais.
Uma pessoa pode funcionar de maneira madura e adaptada na maior parte do tempo, mas, diante de uma perda, de uma ameaça narcísica ou de um conflito intenso, regredir a modos de funcionamento que remetem à fase na qual houve fixação. Essa regressão pode ser temporária, como ocorre em situações de doença ou luto, ou mais persistente, como na neurose.
O conceito de fixação não serve para rotular pacientes ou encaixá-los em categorias. Seu valor clínico reside na possibilidade de compreender a lógica interna dos sintomas e dos traços de caráter, ligando o sofrimento presente a vicissitudes do desenvolvimento.
Quando um paciente apresenta dificuldades persistentes em uma determinada área da vida, o analista pode investigar se essas dificuldades remetem a conflitos não resolvidos em fases precoces. Essa investigação não é feita de forma mecânica ou dedutiva, mas por meio da escuta atenta do material clínico, dos sonhos, das associações livres e da transferência.
Freud nos mostrou que a infância não é simplesmente um período que deixamos para trás. Ela permanece viva em nós, organizada em camadas que se fazem sentir a cada momento da vida adulta. Reconhecer essas camadas, com curiosidade e sem julgamento, é parte do trabalho que a psicanálise propõe.